Contagem decrescente para o IndieLisboa 2012

Às 11 da manhã de 27 de março, no Palácio Galveias, ao Campo Pequeno, em Lisboa, um medley de irresistíveis, penetrantes, originais e indeléveis imagens em movimento eram projectadas numa parede. Na mesa em frente, sentavam-se Rui Pereira, Nuno Sena e Miguel Valverde. Não restam dúvidas – o IndieLisboa – Festival Internacional de Cinema Independente de 2012, organizado pela Zero em Comportamento – Associação Cultural (encabeçada pelos três nomes acima mencionados), com apoio financeiro do Secretário de Estado da Cultura/ICA – Instituto do Cinema e do Audiovisual, da CML – Câmara Municipal de Lisboa, do Programa MEDIA, da União Europeia, em co-produção com a Culturgest e o Cinema São Jorge e parceria estratégica com a EGEAC – Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural, EEM, dá o “pontapé de saída”.

De 26 de abril a 6 de maio, decorre o festival que serve de porta de entrada, tanto a nível nacional como europeu, para o que de melhor se fez no âmbito do cinema independente é aguardado com expectativa pelos cinéfilos ao longo do ano.

Rui Pereira começa por dizer que, se 2011 foi o “ano da crise”, o mesmo não poderia dizer-se de 2012. A resposta dos organizadores aos drásticos cortes que os haviam apanhado de surpresa no ano passado foi mais trabalho, maior capacidade de organização, mais pragmatismo e objetividade, sem abrir mão da criatividade. Ainda assim, 2012 mereceu o epíteto de “ano de todos os perigos”, uma vez que, apesar do desfecho feliz do IndieLisboa, o cinema português terá de enfrentar um rigoroso e incerto inverno, precisamente na altura em que começa a arrecadar prémios internacionais e a ser internacionalmente reconhecido, como atestam os prémios de Berlim, Locarno e San Sebastian e as presenças em Pusan, Toronto e Roterdão. Como se sabe, este é um festival particularmente atento e divulgador da produção nacional, como se confirma pela programação exclusivamente portuguesa da Competição Nacional.

Do Céu e da Terra

 

Já o internacionalíssimo Observatório contará com as estreias lusas de Outras Cartas ou o Amor Inventado, de Leonor Noivo; Palácios de Pena, de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt; Do Céu e da Terra, de Isabel Aboim Inglez. One Way or Another (Reflexions of a Psykokiller), uma remontagem de Edgar Pêra também marcará presença. A competição, que engloba também o Cinema Emergente.

Espaço ainda para Pulsar do Mundo, secção dedicada a documentários que lidam com questões relevantes da atualidade mundial; para o IndieJúnior, dividido em sessões para famílias e escolares, com o objetivo de proporcionar ao público com idades compreendidas entre os 3 e os 17 anos a possibilidade de se assistir a um conjunto de 31 filmes de animação, ficção ou documentais que dificilmente chegariam às salas portuguesas; e para a IndieMusic, que “apresenta documentários ou filmes-concerto sobre bandas de culto de todo o mundo”.

Segundo Nuno Sena, a maior baixa do IndieLisboa 2012 é a secção Herói Independente, considerada um dos emblemas do festival. Contudo, o festival apresentará, este ano, dois focos distintos dentro de duas das secções do festival. Parabéns, Viennale, na qual se celebra o 50.º aniversário do Festival de Cinema de Viena, que fará parte das Sessões Especiais e a seleção Cinema Suíço – Um Bando à Parte, que integrará a secção Foco Cinema Emergente, sendo que estas duas secções vêm, de certo modo, ressarci-lo da queda do Herói Independente. De referir que todas as secções incluem curtas e longas metragens.

 

Parabéns, Viennale – Cinco décadas em cinco filmes

Desde a sua primeira edição que o IndieLisboa mantém uma relação fraternal com o Festival de Cinema de Viena – que celebra 50 anos de vida no próximo outubro e conta com impressionante número de 200 mil visitantes – usando-o como modelo de inspiração para a seleção de um programa cinematográfico horizontal no qual todos os filmes são importantes na mesma medida.

O IndieLisboa associa-se às comemorações do aniversário da Viennale com um programa que materializa esta proximidade, no sentido de manter o critério transversal a todas as secções, “fazer o que não foi feito, mostrar o que não foi visto”, salienta o comunicado. O público terá a oportunidade de ver cinco filmes, um por cada década de vida da Viennale, cujo critério de escolha foi serem representativos do espírito da mostra. Hans Hurch, director da Viennale, estará em Lisboa para apresentar o programa que, sabemos agora, será constituído por Daisies (Sedmikrásky), de Vera Chytilová, de 1966, da Checoslováquia; Cuidado com Essa Puta Sagrada (Warnung vor einer heiligen Nutte), de Rainer Werner Fassbinder, 1971, RFA, Itália; The Last of England, de Derek Jarman, 1988, Inglaterra, RFA; La terre des âmes errantes, de Rithy Panh, 1999, França; e Los Angeles Plays Itself, de Thom Andersen, 2006, EUA.

 

Cinema Suíço – Um Bando à Parte

É dentro de um belíssimo pólo de cinema novo que o IndieLisboa vai encontrar o nervo desta programação especial: nos filmes de Ursula Meier, Jean-Stéphane Bron, Frédéric Mermoud e Lionel Baier, quatro realizadores que constituem o coletivo Bande à part Films.

O colectivo encontra-se na eminência da consagração internacional, ideia reforçada pelo prémio que Ursula Meier acaba de receber na Berlinale por L’Enfant d’En Haut, e que se conta entre os convidados do programa, juntamente com Lionel Baier, este último com carta branca para escolher filmes da ECAL (École cantonale d’art de Lausanne), apresentando uma sessão de curtas metragens que nunca passaram no IndieLisboa. Do programa desta secção, que teve o apoio da Swiss Films e da Embaixada da Suíça em Lisboa fazem parte Garçon stupide (2004), Comme des voleurs (à l’est) (2006), Un autre homme (2008), Toulouse (2011) e Low Cost (2010), todos da autoria de Lionel Baier; Les épaules solides (2002) e Tous à table (2001), de Ursula Meier; Mon frére se marie (2006), de Jean-Stéphane Bron; e Complices (2009) e Son jour à elle (1998) de Frédéric Mermoud.

O festival assinala também o regresso de Werner Herzog ao cinema, com o documentário Into the Abyss, onde a pronúncia alemã do realizador contrasta com o sotaque texano de Michael Perry, um homicida que aguarda a sua vez no corredor da morte. A sangue frio, Herzog entrevista Michael oito dias antes da sua execução.

4:44 é a hora escolhida por Abel Ferrara para o apocalipse. Mas em 4:44 Last Day on Earth, o fim da existência é menos revolto do que nós o imaginamos.

Andrea Arnold adapta o clássico de Emily Brontë em linguagem moderna, com uma câmara à mão que nunca larga as suas personagens. Wuthering Heights ganhou o prémio para melhor fotografia em Veneza.

Take Shelter, de Jeff Nichols, integra a secção Cinema Emergente. No filme de Nichols não sabemos se lidamos com a premonição ou a obsessão do protagonista. A tensão entre as duas fez com que fosse premiado pela Semana da Crítica e pelo júri FIPRESCI em Cannes e arrebatasse prémios em festivais de todo o mundo.

Destaque, igualmente, para Michael, o filme que estremeceu tanto o público como a crítica no festival de Cannes. O primeiro filme de Markus Schleinzer é inspirado na história de Natascha Kampusch. Fala em surdina de um horror unânime, com uma linguagem que nos remete para Haneke no seu melhor.

Nas Sessões Especiais, serão apresentados Rafa, de João Salavisa, premiado em Berlim, Raul Brandão era um grande escritor, de João Canijo, e A Vossa Casa, de João Mário Grilo, filmes que, devido à grandeza de projeção que alcançaram, não poderiam figurar na competição. Nos antípodas, temos a secção Novíssimos, dedicada precisamente a novas obras e vozes do meio cinematográfico português.

Novamente, nesta edição de 2012, haverá, em parceria com a Universidade Lusófona, LisbonTalks, nas quais, através de um “programa consistente, informativo e pedagógico das múltiplas práticas cinematográficas”, procura dar-se a conhecer novos autores e abordar temáticas em torno da renovação das mais diversas problemáticas relativas ao cinema, através de um seminário (para se inscrever, envie e-mail para talks@indielisboa.com com nome completo e morada), conversas e debates.

Na Videoteca Samsung, na Culturgest, estarão disponíveis vários postos de visionamento com todos os filmes do festival (cerca de 4000 títulos) durante o processo de seleção, isto é, entre 27 de abril e 5 de Maio, entre as 14.30 e as 20.30. A novidade desta edição, consiste num posto de visionamento exclusivamente para curtas e longas metragens irlandesas produzidas no último ano, com o apoio da Culture Ireland e do Cork International Film Festival (Irlanda).

E como o Indie também é noctívago, fique atento à agenda do Indie by Night, que se instalará no Cais do Sodré, na Rua Nova do Carvalho (ou melhor, Rua Dr. IndieLisboa, durante o festival), mais concretamente na Casa Conveniente, na discoteca Viking, na Pensão Amor, no Povo, na Velha Senhora e no Musicbox.

Se não puder vir a Lisboa, não fique triste. Extensões nacionais levarão o IndieLisboa a Vila Nova de Famalicão, Angra do Heroísmo e Odivelas, e ainda mais alguns locais a divulgar em data posterior.

Aproveite bem o IndieLisboa. Os bilhetes estarão nas bilheteiras já a partir de 12 de abril e o cinema é tudo.

 

Por Catarina Santiago

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