“Cuidar de Frankie” – para leitores que gostam de levitar

 

“Cuidar de Frankie”, da autoria da irlandesa Maeve Binchy (Bertrand Editora) conta-nos a história de Noel, um pai solteiro que tenta criar uma criança, cuja gestação lhe passou ao lado. As numerosas páginas sucedem-se, injustificadas, numa prosa que parece não ter fim, a menos que seja adepto da literatura dita “light”. Se for esse o caso, “Cuidar de Frankie” fá-lo-á levitar. Mas há um aspecto que é inegável: o optimismo inflexível da autora, apesar das ocasionais injecções de realidade, faz com que a leitura de “Cuidar de Frankie” seja uma experiência reconfortante.

PrintNoel Lynch contenta-se em gastar os dias num trabalho pouco exigente em Dublin e os serões a beber para esquecer o seu tépido e insípido quotidiano. No entanto, a sua vida perde toda a neutralidade quando uma antiga paixão lhe comunica que vai morrer, mas não sem antes dar à luz uma filha sua – Frankie.

Apesar de a notícia abalar Noel, a presença de Emily, a prima recém-chegada dos EUA, uma mulher que consegue instalar a serenidade por onde quer que seja que passe, amortece o embate. Juntamente com Lisa, uma artista gráfica eternamente solteira e apaixonada por Noel, e o médico local, Emily – que difere do ambiente católico militante, apesar de conseguir harmonizar-se com essa paisagem -, revela-se também uma ajudante preciosa com o bebé. Mal surge um contratempo, surge igualmente uma mão amiga e providencial que ampara Noel. Decidido a estar à altura das circunstâncias, deixa de beber, retoma os estudos, transformado-se em pai dedicado.

Mas como nem tudo são rosas, eis que surge uma rigorosa assistente social, Moira, que se recusa a acreditar numa mudança definitiva de Noel. Na sua opinião, ele está a uma bebida de negligenciar os cuidados da sua filha, pelo que insta todos os elementos do seu círculo íntimo a admitir que Noel não tem condições para assumir a paternidade. Dadas as circunstâncias, as reservas de Muiral não são infundadas.

Moira, a personagem mais convincente, estruturada e matizada de “Cuidar de Frankie”, embora aparentemente ser a vilã da história, tem um bom coração. Mas o seu passado embota a sua emoções, impedindo-a de ver a força que sustenta a família improvisada de Noel. É provavelmente ela que nos proporciona o momento mais emocionante do livro.

Maeve Binchy parece-nos demasiado complacente para com as personagens de “Cuidar de Frankie”, tornando-as muito estanques nas funções que desempenham na história e, em consequência disso, demasiado previsíveis numa trama sem obstáculos, atritos e de reduzida surpresa para o leitor. Para além disso, as traves mestras da narrativa estão perpassadas pela improbabilidade: pode um alcoólico ser tão temperado como Noel? E Lisa foge da sua própria casa para ir ao encontro de um sensaborão que precisa de ajuda para cuidar da filha bebé? Duvidosamente.

 

Por Catarina Santiago

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