Os doentes renais têm problemas de rins… não de voz!

Os rins humanos desempenham um papel fundamental na nossa saúde. Por isso, quando começam a falhar, outras funções do corpo são também afetadas, com graves consequências para o organismo. Quando os rins perdem mais de 80% das suas funções, o doente é diagnosticado com Insuficiência Renal Crónica e a sua vida passa a depender de um tratamento de substituição (Diálise).

Insuficiência Renal Crónica

A Insuficiência Renal Crónica (IRC) é um problema de saúde pública que se caracteriza pela diminuição progressiva da função renal. Na prática, o que sucede é uma incapacidade dos rins em proceder à eliminação de certos resíduos produzidos pelo organismo, perturbando o controlo da composição dos líquidos que constituem o interior do corpo humano.

Atualmente, cerca de 8% da população europeia possui algum tipo de doença renal crónica, o que significa que 40 milhões de pessoas sofrem com este problema. Um número que tem vindo a aumentar todos os anos e, caso esta tendência se continue a registar, as estimativas apontam que o número de doentes renais crónicos duplique, já na próxima década.

Existem, essencialmente, dois tipos de tratamento de substituição renal: o transplante renal, que consiste na substituição de um órgão doente por um órgão saudável; e a Diálise, um método de substituição da função renal através de meios artificiais, no qual os doentes podem optar por fazer o tratamento em casa (Diálise Peritoneal ou Diálise em Casa) ou numa unidade pública hospitalar, e também num Centro Diálise Convencionado (hemodiálise). Doentes tratados no privado ultrapassam os 90%.

Portugal é um dos países da Europa com maior número de casos de IRC, com mais de 16 mil doentes dependentes da terapêutica de substituição renal. Destes 16 mil, cerca de 11.000 encontram-se a fazer diálise e mais de 5 mil foram transplantados.

 

Diálise: Fora ou em Casa?

A Hemodiálise (HD) caracteriza-se pela eliminação das substâncias tóxicas do sangue fora do corpo. Nesta técnica, realizada numa unidade de saúde, o sangue circula por um aparelho externo e passa por uma membrana artificial que o “limpa” e depois devolve ao organismo. Para a maioria dos doentes, este procedimento é feito três vezes por semana, durante aproximadamente quatro horas por sessão. Em 90% dos casos, esta terapêutica é realizada por prestadores privados, ou seja, das 116 unidades de hemodiálise existentes em Portugal, 85 pertencem a prestadores privados que tratam cerca de 9.700 doentes.

A Diálise Peritoneal, contrariamente à Hemodiálise, é uma técnica na qual o sangue não sai do organismo, motivo pelo qual pode ser feita no domicílio do doente de forma muito mais simples e proporcionando maior autonomia e conforto. É menos agressiva, pois as toxinas e os fluidos são removidos gradualmente e de forma contínua, utilizando uma membrana natural como filtro. O líquido da diálise é introduzido na cavidade peritoneal através de um pequeno tubo flexível, previamente implantado no abdómen, mas, uma parte deste tubo, permanece fora do abdómen e permite ligar as bolsas de solução de diálise. O cateter fica escondido por baixo da roupa, de forma muito discreta.

Vários estudos comprovam que a Diálise em Casa apresenta uma sobrevivência igual ou superior à Hemodiálise, com a vantagem de proporcionar uma superior qualidade de vida e melhor ajuste à atividade profissional. A Diálise em Casa tem, em Portugal, uma ampla margem de crescimento, podendo ser incrementada dos atuais 6% para valores mais próximos da realidade mundial, que rondam os 20%. Em termos de custos, um doente a fazer Diálise em Casa custa ao Serviço Nacional de Saúde cerca de 30% menos, despesas relacionadas com transportes incluídas, do que um doente em Hemodiálise.

 

Diálise em Casa (Peritoneal): Durante o dia ou à noite?

Existem duas formas de Diálise Peritoneal: a Diálise Peritoneal Automática (DPA) e a Diálise Peritoneal Contínua Ambulatória (DPCA). A DPA efetua-se em casa, durante a noite, enquanto o doente dorme. Um dispositivo controla o tempo necessário para efetuar as trocas necessárias, drena a solução utilizada e introduz a nova solução de diálise na cavidade peritoneal. As máquinas são seguras, fáceis de gerir e podem ser utilizadas em qualquer lugar que possua acesso à eletricidade. É a opção de tratamento ideal para as pessoas que desejam autonomia. A DPCA é geralmente feita ao longo do dia, com três ou quatro trocas diárias. O período de aprendizagem demora, em média, uma a duas semanas. Posteriormente, o tratamento pode ser feito em casa, no trabalho ou noutro local que tenha as condições adequadas. Pode também ser adaptado a diversos horários, consoante as necessidades.

 

O poder de escolha do doente

Em Portugal, tudo indica que os doentes renais ainda não possuem liberdade ou o poder de escolha desejável no que diz respeito à opção de tratamento para a IRC – Hemodiálise ou Diálise em Casa – o que coloca o nosso país no 29º lugar entre os 31 países presentes no Índice Europeu de Poder do Doente. O resultado é um enorme desequilíbrio entre as alternativas de diálise que estão a ser praticadas: 94% dos doentes são tratados com Hemodiálise – o que corresponde a 10.140 doentes – e 6% com Diálise em Casa – cerca de 650 doentes. Calcula-se que uma das principais razões para esta discrepância se deve à falta de informação sobre as várias opções de diálise. Alguns estudos demonstram que entre 35 a 55% dos doentes preferiam ser tratados em casa, quando lhes são apresentadas as duas opções de tratamento. Adicionalmente, uma grande percentagem dos médicos nefrologistas – cerca de 50% – considera que a Diálise em Casa é a melhor opção de tratamento para os doentes que necessitam de realizar tratamento a longo prazo. De facto, do ponto de vista clínico, a Diálise em Casa oferece inúmeras vantagens: os doentes que realizam esta forma de diálise apresentam uma sobrevida idêntica ou superior face aos doentes em Hemodiálise, bem como uma menor taxa de infecções; esta terapêutica causa menos hospitalizações (uma das razões mais comuns de internamento de doentes no hospital), contribuindo para um menor risco de vida do doente: é, também, a forma de diálise a longo prazo mais adequada aos objectivos dos doentes que dela necessitam, apresentando melhores resultados após a transplantação.

Em suma, a Diálise em Casa é sinónimo de uma maior liberdade e flexibilidade, pois os doentes que realizam esta terapêutica podem ter um estilo de vida muito mais independente e melhor qualidade de vida. Em casa, os doentes podem planear os tratamentos de acordo com as suas necessidades e horários, não sendo necessárias deslocações periódicas a instituições de saúde. Além disso, a poupança para o Serviço Nacional de Saúde é considerável e, numa altura em que assistimos a tantos cortes nesta área, basta analisar criticamente o sector da Diálise para se ver os ganhos – em todos os níveis – que podem ser conseguidos. No nosso caso não estamos a pedir muito… Apenas que os nossos doentes sejam consultados e lhes seja dado o poder de escolher o tratamento mais conveniente. Afinal, o nosso problema é nos rins e não na voz… Será exigir muito?

 

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Por Carlos Silva
Presidente da Associação Portuguesa de Insuficientes Renais (APIR)

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