Entrevista a Maria de Vasconcelos: Aprender História a cantar

Chama-se Maria de Vasconcelos, licenciou‐se em Medicina em 1994 e especializou-se em Psiquiatria, mas também é mãe, gosta de escrever e de cantar. Depois de “As canções da Maria” e “As canções da Maria II”, com muitos temas de Matemática, de Língua Portuguesa e de Estudo do Meio, a nova aventura que se segue é um bonito livro com grafismo de Patrícia Furtado, em formato CD e DVD com 17 canções, 1 poema, 4 lengalengas e muitas curiosidades, com a chancela da Sony Music Portugal: “As canções da Maria Especial: História de Portugal”. O Onde Ir conversou com a Maria sobre este trabalho que já está à venda.

Por Sandra Martins Pereira

A pergunta que se impõe: Como consegue conjugar todas as atividades que tem e ainda ser mãe?

Quem corre por gosto não cansa! Mas eu não poria a questão por essa ordem. Eu não sou só mãe, claro está, mas ser mãe está antes de qualquer das minhas atividades.

Depois de ter lançado “As canções da Maria”, um e dois, dedicadas a temas como matemática, língua portuguesa e estudos do meio, dedica agora este trabalho à história. Acredita que é mais fácil para as crianças aprenderem de uma forma didática?

Claro! Para as crianças e para os adultos. Didático é algo que facilita a aprendizagem. É suposto o ensino ser didático. Só devia ser didático, divertido, que fomentasse o gosto de aprender, o brio de bem fazer, a criatividade, que elevasse o aluno, que trouxesse ao de cima os seus talentos.

Infelizmente não me parece que se invista nessa formação dos professores. O sistema educativo que temos é post-revolução industrial, fabril, limitativo, e mata a criatividade, como afirma Ken Robbins.

Muitos professores passam os anos preocupados com a sua situação profissional, sufocados por programas cada vez mais extensos dados a crianças cada vez mais pequenas e com dificuldades em termos de maturidade para os captar devidamente, sofrem inundados de burocracia, avaliações e números que se colocam num software estatístico para um ranking escolar. A aprendizagem não é uma média matemática, a aprendizagem é dentro de cada um de nós, e cada um de nós é único e irrepetível, com o seu leque de inteligências múltiplas misturadas de variadas formas, o que significa que cada um de nós vê o mundo à sua maneira, com as suas capacidades e talentos próprios. Logo também aprende à sua maneira, uns percebem melhor através de um jogo, outros com uma experiência, outros com um debate, outros com uma canção, um teatro, outros em movimento, etc. Quantas mais formas usarmos para explicar algo, a mais pessoas conseguimos chegar.

Temos dois hemisférios cerebrais. O esquerdo é o lado do pragmatismo, da lógica, da informação “pura e dura”. O direito é das emoções, da arte, da linguagem não falada. Quando juntamos os dois, a informação concentra-se dentro de nós e fica lá. Aprende-se muito mais facilmente algo em que nos envolvemos de “corpo e alma”, permitam-me a metáfora.

Criei “As canções da Maria”, precisamente para facilitar a aprendizagem, e o imenso retorno tem sido exatamente esse ao longo dos anos.

“Tudo é mais fácil a cantar!” É o sentido desta, quanto a mim muito válida ferramenta de estudo.

O facto de ter duas filhas ajuda-a a perceber as dificuldades que uma criança pode ter em cada matéria?

Claro. “As canções da Maria” nasceram da minha vontade de facilitar a aprendizagem às minhas filhas, a Mathilde e Manon, quando elas, ainda muito pequeninas, me começaram a trazer os temas ensinados na escola, e por isso tenho vindo a seguir o programa escolar. Falei com professores para perceber as dificuldades dos alunos, quais os conceitos para os adultos simples mas para as crianças em início de aprendizagem escolar abstratos e mais difíceis de compreender, peguei nos manuais e desatei a fazer canções seguindo o programa. Os professores reviram, como continuam a rever tudo o que escrevo, pois eu não sou professora, apenas transmito a matéria de uma forma lúdica e divertida.

A Mathilde e a Manon são o “meu tubo de ensaio”, experimentam em primeira mão, explicam-me o que é mais e menos complicado, o que é mais e menos importante, porque são elas que estão nas aulas todos os dias.

Fale-nos deste trabalho. Como surgiu a ideia de fazê-lo e o que se propõe com ele?

No 4º ano as manas M começaram a aprender a História de Portugal e eu quis imediatamente fazer este “Especial História”, não só porque é uma ferramenta de estudo, muito abrangente em termos escolares, uma vez que a História de Portugal é repetida 3 vezes do 4º ao 8º anos, mas também porque temos uma História riquíssima, cheia de estórias fantásticas, cheia de heróis, fomos “donos do mundo”, e tenho um grande orgulho em poder contá-la e cantá-la de uma forma divertida e acessível para que miúdos e graúdos a possam conhecer e aprender, e que se sintam orgulhosos também.

“As canções da Maria Especial: História de Portugal” conta com a participação das suas filhas e marido. Foi fácil convencê-los a fazer parte deste projeto?

Desde o início que é um projeto familiar. É um privilégio poder fazer tudo isto em família. Ter as contribuições preciosas das manas M, que não só me orientam explicando o que é mais e menos importante, quais são as áreas mais complicadas, mas também sugerem melodias, letras, cantam e encantam, é maravilhoso. As ideias divergentes, e que funcionam sempre, do Xavier, o pai da Mathilde e da Manon, o nosso Mathias (o Mathias é um mini-Xavier, um amigo malandreco das meninas) é a cereja em cima do bolo.

Divertimo-nos imenso, adoramos as gravações, os concertos, as filmagens, é mesmo uma coisa boa. Dá muito trabalho, mas juntos até parece que não dá trabalho nenhum.

Enquanto médica psiquiatra quais são, na sua opinião, os principais problemas que a sociedade está e vai passar nos próximos tempos?

Os mesmos de sempre, a intolerância, o medo, a desconfiança, a falta de brio, o abuso de poder, a mentira, a arrogância, a solidão, o isolamento, a tristeza, a angústia, o cansaço, o aborrecimento, a saturação, o consumismo, o esgotamento, a negligência, os excessos e muitas lágrimas. Enquanto a humanidade for humanidade, existirão coisas humanas.

O que é muito bom é que, também por isso, haverá amor, amizade, tolerância, paciência, solidariedade, abnegação, humildade, cortesia, gentileza, boa fé, boa vontade, incentivo, criatividade, crescimento, comunhão, partilha, saúde, alegria, paz e muitos sorrisos.

Pensa que as crianças de hoje têm liberdade suficiente para serem criativas ou pelo contrário, o uso de telemóveis e iPads tolda-lhes o raciocínio?

Na escola não terão quase de certeza. Não parece haver quase nunca tempo nem exterior nem interior para isso, da parte de quem dirige, na maior parte das escolas. Perdoem-me a generalização, haverá escolas diferentes de certeza, mas é o que me chega através de múltiplos canais.

As novas tecnologias, se utilizadas com conta, peso e medida, não toldam nada, antes pelo contrário. Há que saber dosear e ter, como em tudo, bom senso. Sigamos com estes já não assim tão novos “bichos eletrónicos” uma ética Aristotélica, a virtude do meio-termo.

O projeto foi apresentado a 4 de novembro, qual foi a reação do público?

Foi muuuuuito bem!  Casa cheia, um público feliz e que nos trata sempre com muito carinho e que nos enche a alma! O retorno foi de admiração e agradecimento, mas nós é que agradecemos, pois é graças a todas as famílias que gostam de nós e apreciam o nosso trabalho que a nossa família consegue continuar a criar “As canções da Maria”.

Já está a trabalhar num novo projeto?

Estou sempre com ideias a fervilhar e outras em banho Maria (sendo que a expressão se me aplica que nem uma luva por razões nominais óbvias). Veremos o que se seguirá.

Que mensagem gostaria de deixar aos seus ouvintes e aos nossos leitores?

O “As canções da Maria – Especial História de Portugal” é uma edição de autor. É o nosso 3º “bebé”, um filho muito desejado, feito com todo o amor e carinho, que saiu de nós e partiu pelo mundo. Esperamos que seja muito feliz, muito amado, e que faça muitos muito felizes!

Obrigada por tornarem tudo isto possível com o vosso apoio e o vosso apreço! 

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