Entrevista com José Gonçalez: Melhor “Improvável”

Acaba de lançar o álbum “Improvável” com o selo da Sony Music Portugal. Reúne num só disco 10 temas e 10 artistas convidados e prepara-se para apresentar no Casino Estoril, um espetáculo único e muito “improvável” de voltar a repetir-se, até porque reunir 38 cantores e músicos no mesmo palco, é tarefa quase impossível. O Onde Ir esteve à conversa com José Gonçalez para sabermos mais sobre este recente trabalho.

Entrevista de Sandra Martins Pereira

 

Acaba de lançar o álbum “Improvável”. Dez temas, 10 convidados. Quanto tempo levou a gravar este trabalho?

É verdade, esta é a filosofia do álbum, 10 temas, 10 convidados. Levámos 10 meses a gravá-lo. Inicialmente este era um disco pensado de outra forma, mas que acabou por ser repensado e que saiu assim. Daí o nome “Improvável”.

O disco era para ser com letras minhas, de Fado tradicional, mas depois optámos por ser eu também a compor as músicas e quando me juntei com o Jorge Fernando, produtor do disco, decidimos convidar amigos para cantar os temas. Muito mais do que grandes intérpretes, até porque todos o são, são pessoas com carreiras absolutamente brilhantes. Decidi assim convidar amigos de uma vida inteira, com quem tenho partilhado muitos momentos da minha vida.

Os temas foram criados de propósito para este trabalho?

Exatamente, toda a ideia do disco foi reformulada, a partir do momento que se optou por fazer originais meus, letra e música, comecei do início, ou seja, desafiei amigos para participarem no disco. Felizmente todos aceitaram e fui fazer cada tema a pensar em cada um dos convidados. A ideia é que o disco fosse coerente e também atendendo ao que eu conhecia e conheço de cada convidado, tentar construir um tema que, quer artisticamente quer intelectualmente, cada um dos convidados se revisse.

Portanto foi um trabalho que começou de novo, numa nova perspetiva, nesta de improbabilidades, porque era improvável o disco ser assim, era improvável ter este produtor, ter estes músicos, ter estes convidados, era improvável ter letras e músicas minhas. E foi desse conjunto de improbabilidades que nasceu o nome do álbum.

E quando lhes apresentou o tema, aceitaram logo?

Sim, aceitaram logo e nem fizemos nenhum tipo de adaptação nem de correção. Como lhe digo não foi muito complicado, atendendo ao facto de as pessoas que desafiei já terem um relacionamento de uma vida inteira comigo, à exceção dos Sangre Ibérico, que acabei por descobrir neste último ano, mas que também se tornaram peças fundamentais na minha vida. Portanto, acabou por ser um processo “fácil”, se é que se pode dizer que isto é fácil, mas atendendo que eu os conhecia bem, acreditava que as letras e as músicas que estava a compor seriam do seu agrado.

Jose Goncalez e Vitorino
José Gonçalez e Vitorino
Créditos: Hugo Moura

“Alentejo, um ar de festa” é o single de apresentação que canta com o Vitorino. Porquê esta escolha?

Já conheço o Vitorino há 30 anos e porque penso que um tema que falasse, soubesse e cheirasse a Alentejo, deveria ser cantado com alguém também desta região. Portanto aquilo que eu pretendia com o tema do Alentejo, se por um lado, e é isso que a letra conta, se alguém à distância mata saudades da terra-mãe, mas sempre numa perspetiva de saudade, de dolência que o Alentejo tem, a profundidade, os campos largos do Alentejo, são também eles coerentes com os seus habitantes e vice-versa. No fundo este tema fala dos pardais, dos trigais, das ceifeiras, do horizonte longe, da água fresca, das sombras, dos montados, das papoilas, fala daquilo que o Alentejo tem de melhor e tudo isto para mim só podia ser suportado em vozes que tenham conhecimento desta realidade. E portanto, o Vitorino, para além de ser um cantor absolutamente genial é um alentejano dos “sete costados”, até porque grande parte da sua vida continua a ser vivida no Redondo.

O José gravou o seu primeiro disco tinha 18 anos. Sempre sonhou ser cantor?

Não. Nunca sonhei ser cantor e também nunca foi, nem é a minha opção de vida. A minha paixão foi sempre a música e a rádio. Comecei com 14 anos a fazer programas de rádio em Estremoz, onde morei até há seis anos. Hoje, passados estes anos todos mantenho isso, a minha profissão continua a ser a de locutor/animador de rádio, mantenho o programa na Rádio Amália, e a par disso tenho outra coisa que sempre me fascinou e de que gosto muito, que é a produção e programação. Sou o responsável também dos festivais Caixa Alfama, Caixa Ribeira, Caixa Luanda e este ano em Benguela também, portanto faço o que sempre sonhei que é dentro da música. A rádio é de facto o fascínio maior, a programação e os espetáculos são algo que sempre me deu gozo. O cantar foi sempre qualquer coisa que esteve ao lado, é uma linha paralela que vai ao lado da minha vida profissional, sempre numa perspetiva de que é uma coisa que eu gosto, vou gravando discos, vou fazendo canções, mas que nunca foi uma primeira opção de vida.

O Fado foi sempre a primeira opção?

Foi sempre e é, embora este disco, e é importante que eu diga isto, não ser um disco de Fado, mas feito pelas gentes do Fado. Os músicos, o próprio ambiente do disco são habitualmente os que o Fado utiliza, e os músicos são os que na maioria das vezes me acompanham nos fados, à exceção do tema com a Cuca Roseta, “Uma Ponta D’Ilusão”, que é um Samba. Aí fui buscar três músicos brasileiros, um bandolinista, um percussionista e um baixista: Edu Miranda, Rafa Zamurano e Máximo Ciuro, respetivamente.

O disco foi todo gravado com gente do Fado e tem o ambiente do Fado, mas não é um disco do Fado, porque tem várias sonoridades. Tem um Fado que eu gravei com a Maria da Fé, que esse sim quer na formação musical – guitarra, viola e baixo – quer no texto utilizado, quer a própria estrutura da música que eu criei e chamei “Fado Improvável”, esse sim é um fado. Todos os outros temas são canções que refletem as minhas vivências, a minha aprendizagem, os meus erros, portanto são temas que me revelam em tudo aquilo que eu tenho construído.

Em que é que se inspira quando escreve cada uma das suas letras?

Eu não me sento para escrever, não penso no que vou escrever. Nunca me sentei para escrever. A inspiração tem a ver com o dia a dia, com as coisas que me acontecem, uma simples frase, uma flor, uma história, portanto tudo pode encontrar em mim a vontade de passar isso para verso. Não é um processo pensado ou ponderado, é momentâneo, normalmente aparece do nada. E neste disco tenho dez das coisas que mais gostei de escrever até hoje, mas nasceram todas de forma completamente inesperada. Eu sabia que precisava de fazer por exemplo, um tema para os Sangre Ibérico. Há uma diferença etária bastante grande entre mim e os Sangre Ibérico de mais de 20 anos, e se na minha geração o hábito era de se poder beber um copo de vinho e conversar com os amigos, nos dias de hoje é o gin que está mais na moda, daí esta ideia “É Sempre Assim… Entre Vinho Tinto e Gin”.

Jose Goncalez
Créditos: Hugo Moura

Nasceu em Estremoz, foi difícil para si singrar no meio da música na altura?

Na minha altura não era fácil, porque quem quisesse singrar, ainda mais na música, teria de vir para Lisboa, até porque é aqui que estão as pessoas que nos podem ajudar. Hoje em dia já não é bem assim, porque hoje podemos ter um miúdo que faz um vídeo onde estiver e nós ouvimo-lo aqui.

Como é que foi o seu percurso?

Foi um percurso normal, só vivo em Lisboa há seis anos, sempre fiz rádio, desde os meus 14 anos, numa rádio local em Estremoz e portanto quando queria fazer alguma coisa diferente, obviamente tinha de vir a Lisboa, mas o passo decisivo para mim, até para chegar onde estou hoje foi construído no Alentejo. Depois tive a sorte de produzir muitas coisas para a RTP com o Frei Hermano da Câmara e com o José Cid, e acabei por receber o convite para a Rádio Amália.

Dia 31 de maio vai ser a apresentação deste disco “Improvável”. Quer contar-nos como vai ser?

É um dia único, não está no horizonte sequer repetir este espetáculo, até porque é muito complicado ter 10 convidados com vidas artísticas muito ativas, disponíveis em outras datas.

Depois também é um disco com muitos músicos, porque tem a banda completa do José Cid, a Big Band, tem um dos mais brilhantes pianistas que é o Júlio Resende, com quem canto o último tema do álbum “Eu Tenho Tanta Pena… Pai!”. Um tema que gravámos ao primeiro take e que não teve qualquer tipo de ensaio ou correção. Temos também dois dos mais fabulosos guitarristas que são o Ângelo Freire e o José Manuel Mora. Os músicos brasileiros que já mencionei anteriormente: Edu Miranda bandolinista, o Rafa Zamurano percussionista e o baixista Máximo Ciuro. Sem esquecer do também baixista Francisco Gaspar, José António Pedro nas teclas, David Jerónimo na bateria e o produtor e viola deste álbum: o genial Jorge Fernando.

O Salão Preto e Prata, do Casino Estoril, é o palco escolhido para receber no próximo dia 31 de maio, a partir das 22 horas, este espetáculo “Improvável”, que reúne 38 artistas e músicos. O preço do bilhete é de 15€, mas todas as pessoas que assistirem ao espetáculo terão no final a oferta deste CD, para que possam perpetuar este momento. Neste momento já temos mais de meia sala cheia, pelo que estamos muito contentes. 

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