Gheorghe Fikl conta ao Onde Ir sobre a exposição que hoje inaugura no Palácio Nacional da Ajuda

O Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, inaugura hoje a exposição “Fikl. Portuguese Storylines”, do pintor romeno Gheorghe Fikl. Uma mostra que estará patente até 31 de agosto e que surge no âmbito da celebração de 100 anos de relações diplomáticas luso-romenas, com o apoio da Embaixada da Roménia, o Instituto Cultural Romeno, a Fundação Bonte e a Direção Geral do Património Cultural.

fikl
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Gheorghe Fikl é um dos mais conceituados artistas romenos contemporâneos. Munido de uma mestria pictórica exemplar, Fikl cria um universo visual sumptuoso e perturbador através de uma série de composições com vários revestimentos simbólicos em que animais angustiantes e de grande porte – touros, pavões, cães e ovelhas – são estranhos ocupantes de espaços surrealistas, com um hedonismo violento e trágico, que proporciona tantos outros contextos de reflexão sobre a condição humana em tempo pessoal e histórico.

Com exposições individuais de pintura e fotografia em Timisoara (incluindo a mais recente, no Museu Nacional de Arte, que contribuiu de forma decisiva para a candidatura vencedora da cidade a Capital Europeia da Cultura), Bucareste, Luxemburgo e Nova Iorque, Gheorghe Fikl destacou-se em leilões com transações valiosas, tendo, desta forma, entrado em importantes coleções privadas na Roménia, EUA, Portugal, Grã-Bretanha (incluindo a coleção do Príncipe Carlos de Gales), França, Andorra, Luxemburgo, Alemanha. Vive e trabalha em Timisoara, Roménia. Desde 2016 o artista é representado pela galeria AnnArt.

Dominion (Toulouse I)_276x270cm_Bonte Collection

Gheorghe Fikl falou ao Onde Ir sobre esta exposição e a sua pintura. Veja a entrevista:

O que pretende transmitir com a sua arte?

Uso a minha arte para retratar aspetos do nosso mundo que de outra forma não seriam notados ou tomá-los-íamos por garantidos. Estou a fazê-lo sobrepondo dois mundos diferentes, colocando-os em antítese. O resultado que quero alcançar é um contraste equilibrado de mensagens. Desafio ambos os mundos que se encontram na minha tela, por um lado, o mundo físico, material, carnal, por outro, o mundo espiritual, metafísico e transcendental.

As obras que nos mostra têm por vezes animais angustiantes de grande porte. Porque utiliza estes animais na sua pintura e o que nos revela esta angústia?

As minhas obras apresentam animais porque eles têm uma simbologia e representação específicas na mente do público. A razão para a sua angústia é porque tiro os animais do seu ambiente habitual e coloco-os em ambientes impróprios. Migraram para outro mundo que não reconhecem e por causa disto sentem-se pouco à-vontade. Consequentemente, esta tensão emerge nos meus quadros. A tensão quando dois mundos diferentes se encontram. Neste ponto de encontro, quaisquer símbolos, como os conhecemos, são desafiados. Além disso, o mundo à volta muda também.

Em que é que se inspira quando cria as suas obras?

Sou inspirado por dois grandes elementos: natureza e arquitetura. O primeiro faz-se a ele próprio, o segundo é feito pelo homem. A arquitetura é a manifestação do mundo físico, enquanto a natureza, na sua forma pura, é o espaço onde o metafísico se revela. Estou a tentar retratar os aspetos intrincados que formam estes dois mundos.

Como surgiu o convite para realizar esta exposição em Portugal, no âmbito da celebração dos 100 anos de relações luso-romenas?

O Sr. Alain Bonte, que, ao longo dos anos, tem vindo a construir pontes fortes entre as culturas da Roménia e Portugal, mostrou interesse no meu trabalho. A sua organização, a Bonte Foundation, adquiriu recentemente vários dos meus trabalhos. Neste contexto, considerou adequado lançar-me um convite para mostrar os meus trabalhos pela ocasião da celebração dos 100 anos das relações Portugal-Roménia. Esta exposição também beneficia do apoio da Embaixada da Roménia em Portugal e do Instituto Cultural Romeno em Lisboa. Sou grato a todas as organizações, instituições e pessoas que tornaram possível esta exposição. Não podia pensar num sítio mais adequado para mostrar as minhas obras do que o Palácio Nacional da Ajuda. Este tipo de arquitetura inspira-me muito.

Já esteve em Portugal?

É a minha primeira vez em Portugal.

El Angel Exterminador (Encore)_280x200cm_Bonte CollectionO que é que gostaria de visitar, quais são as suas expetativas em relação ao país?

Evidentemente, a minha primeira paragem serão os museus de arte moderna e contemporânea. Quero visitar o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, mas também instituições mais recentes, como o Museu Berardo. Sei que a cena artística portuguesa é muito vibrante, com muitos artistas emergentes e espaços de arte contemporânea como a Cristina Guerra Contemporary Art ou Carlos Carvalho Arte Contemporânea.

Qual o artista português que mais aprecia e porquê?

Receio dizer que não estou tão familiarizado com a arte portuguesa, pelo que não posso dizer que tenho, para já, um artista favorito. Contudo, estou a usar esta oportunidade para estar em Portugal, durante uma semana, para começar a explorar as tendências artísticas portuguesas com maior profundidade.

Tem mestres nos quais se inspire para criar as suas próprias obras? 

Ao longo da minha carreira artística tenho encontrado inspiração em artistas cujo trabalho considero que tem originalidade. Entre eles, posso falar de mestres como Rembrandt ou Bacon, mas também contemporâneos como Yan Pei Ming.

Que técnicas utiliza na sua pintura?

Na sua maioria, óleo e tela.

O que podem encontrar os portugueses nesta exposição que agora estará patente no Palácio Nacional da Ajuda?

A exposição terá patente 17 dos meus quadros e 6 fotografias.

Numinous_186x297cm_Bonte Collection

Há alguma obra sua nesta mostra que destaque mais?

Todas as minhas obras são significativas para mim, porque estou a tentar retratar aspetos da nossa realidade que de outra forma passariam despercebidos. As minhas obras são a minha forma de comunicar com o mundo.

 

Nota: A exposição estará aberta todos os dias, das 10h00 às 18h00 (última entrada às 17h30). À quarta-feira, o Palácio Nacional da Ajuda encontra-se encerrado.

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