Rodrigo Leão: “Não sou muito calmo, mas procuro alguma calma com a minha música”

O nome não necessita de apresentações quer em Portugal quer no estrangeiro. Passou pela Sétima Legião e pelo grupo Madredeus, até que decidiu enveredar numa carreira a solo a partir de 1992, com o álbum “Ave Mundi Luminar”. A 8 de junho estará no NOS Primavera Sound, no Porto, para partilhar o palco com o australiano Scott Mathew, como nos disse o músico e compositor Rodrigo Leão durante a conversa que tivemos no Bairro Alto Hotel, em Lisboa.

Entrevista Sandra Martins Pereira

Fotografias Rodrigo Cabrita

Rodrigo Leao_9

 

Passou pela Sétima Legião, pelos Madredeus e depois decidiu lançar-se sozinho. Quando tomou essa decisão imaginava que iria alcançar o sucesso que hoje tem?

Não, de forma alguma. Com a Sétima Legião e com os Madredeus foi uma experiência muito enriquecedora para mim. A Sétima Legião foi o meu primeiro grupo de bairro, com amigos que ainda hoje são os meus melhores amigos, como o Pedro Oliveira e o Nuno Cruz e, portanto, era um sonho que vinha desde os meus 12 ou 13 anos, quando me ofereceram pela primeira vez uma guitarra. Mas eu era canhoto e ainda estive uns meses a aprender e a não trocar as cordas.

Acima de tudo o que queríamos era fazer a nossa própria música, muito intuitivamente, sem pensar se íamos ter êxito ou não. É evidente que o primeiro disco da Sétima Legião não era muito comercial, portanto tivemos a noção de que chegámos a algum público, público que nos interessava, mas não era uma coisa que pensássemos muito. Mais tarde a Sétima Legião deu um grande salto com o segundo disco, porque tínhamos duas ou três canções que começaram a passar na rádio e passámos a fazer mais concertos.

Os Madredeus começaram por ser um projeto que eu e o Pedro pensámos durante um ano ou dois. Queríamos fazer algo mais acústico do que fazíamos nos nossos grupos de então – Sétima Legião e Heróis do Mar -, mas como as nossa bandas faziam muitos concertos, os Madredeus acabavam por tocar quatro ou cinco vezes por ano. Era algo muito esporádico, nem alguma vez me passou pela cabeça que viesse a ter tanto êxito como teve.

A Bélgica foi o primeiro país a editar Madredeus e a partir daí começámos a tocar em todo o lado, Brasil, Japão, Europa, andámos de um lado para o outro e foi inesperado de certa maneira.

Depois, em 1993, gravo o meu primeiro trabalho a solo, que eram no fundo ideias que eu tinha que não cabiam nem nos Sétima Legião nem nos Madredeus e eu resolvi durante dois ou três anos, calmamente, arranjar essas músicas. Porque estava também a descobrir ao mesmo tempo, o mundo dos computadores onde um sintetizador conseguia gravar primeiro um violino, depois uma flauta, depois um piano e ia gravando pista a pista sons de sintetizador.

Mas com o “Ave Mundi Luminar” teve um grande êxito que o abriu a mercados internacionais.

Foi aí que fiz o meu primeiro disco, o “Ave Mundi Luminar”, que era um disco muito mais sinfónico, mais clássico, porque tinha a presença das cordas, tinha cantores líricos a cantar em latim. Não era uma música de todo comercial, eu estava fascinado na altura pelo minimalismo dos anos 90 e por compositores como o Michael Nyman, Ryuichi Sakamoto, e senti que dentro dessa corrente musical estava a fazer aquilo que sempre tinha sonhado, que era fazer um disco todo meu, composto por mim. Claro que tinha a produção de muitos músicos que estavam envolvidos no projeto. O disco saiu e teve algum êxito em Espanha, onde fiz alguns concertos, assim como em Portugal.

Depois estive dois ou três anos a preparar um segundo trabalho, o “Theatrum”, que também era um disco muito pouco comercial. E depois do “Theatrum”, ainda nos anos 90, juntamente com o Gabriel Gomes lançámos o grupo Os Poetas.

Tinha sempre a necessidade de não ficar parado a fazer as mesmas coisas, tinha essa necessidade de trabalhar com músicos diferentes. Penso que só a partir do álbum “Alma Mater”, em 2000 – talvez por ser o meu primeiro trabalho com duas ou três canções, uma delas com a cantora brasileira Adriana Calcanhoto – passei a fazer muito mais concertos ao vivo.

É difícil fazer chegar a música que é feita aqui em Portugal lá fora ou isso foi acontecendo naturalmente?

Isso foi acontecendo naturalmente. Não era um som que as pessoas pudessem identificar como sendo português, é um som mais internacional pelos instrumentos que eram utilizados e também por essa corrente minimalista que estava presente no meu trabalho.

Enquanto músicos não pensamos como vamos divulgar esse trabalho. O músico fica à espera que a editora o faça. E se a música não é muito comercial não há grandes surpresas, o processo é mais lento, mas se é aquilo que queremos fazer, então ficamos felizes, independentemente de o disco ter mais ou menos êxito.

O Rodrigo teve alguma influência em casa para seguir música?

A minha mãe ouvia música clássica em casa, mas também francesa e brasileira e do compositor argentino Astor Piazzolla, e claro que foi uma influência.

Mas sempre quis ser músico ou foi surgindo a ideia?

Não. É evidente que quando me deram a guitarra surgiu um grande entusiamo, mas nunca pensei sequer que pudesse viver da música. Eu era muito otimista e normalmente era quem telefonava aos músicos a marcar os ensaios, mas foi acontecendo naturalmente e depois só quando estava a estudar no segundo ano de Direito tive de tomar uma decisão e acabei por desistir do curso, o que me custou bastante, porque temos sempre a incerteza de que as coisas possam correr bem. Mas nessa altura já tínhamos gravado o primeiro trabalho com os Madredeus e eu tinha muitos concertos marcados, foi um risco que corri, mas nunca me arrependi.

Rodrigo Leao_3

Em 2013 compõe para o cinema. Filmes como a “Gaiola Dourada” do realizador Ruben Alves, “O Mordomo” do americano Lee Daniels e ainda a longa metragem angolana “Njinga Rainha de Angola”, do realizador Sérgio Graciano. Como recebeu o convite para fazer estas bandas sonoras?

Foram os três filmes no mesmo ano e foi uma coincidência, porque eu posso estar 3 ou 4 anos sem fazer músicas para filmes, mas a verdade é que nos últimos anos tenho feito mais bandas sonoras. Eu gosto, sempre gostei, aliás sempre disse nas entrevistas que gostaria de fazer músicas para filmes. Fiz o meu primeiro trabalho para um filme em 1989, com o realizador Manuel Mozos em “Um passo, outro passo e depois…”, vai fazer quase 30 anos, mas depois e apesar de falar não havia muitos pedidos, tirando de há uns anos para cá que tem aumentado.

E gosta porquê? O que é que tem de diferente?

Gosto, porque primeiro obriga-me a trabalhar mais. Temos as imagens, há prazos e temos de mostrar de 2 em 2 dias, músicas novas. É evidente que muitas das músicas que depois não são aproveitadas – porque gosto de dar duas ou três ideias para uma cena -, ficam ali guardadas no computador.

O que acontece é que nos enviam as imagens com uma referência musical, para eu saber o que têm em mente e depois é seguir um pouco o instinto. As imagens no início são muito importantes, mas depois já estamos envolvidos na música.

Destes três filmes qual é que gostou mais de fazer?

“O Mordomo”. Primeiro porque tivemos meios que eu nunca tinha tido, uma orquestra fantástica em Londres que só faz música para filmes. E porque são 26 peças pequeninas, algumas têm 42 segundos outras dois minutos, mas são para mim de grande importância, porque foi o primeiro filme com mais posição que fiz. Conheci muitas pessoas novas, desde músicos ao arranjador, até o realizador e acima de tudo fiquei com a sensação que aprendi com as pessoas que me rodearam.

Rodrigo Leao_5

Em setembro passado lançou o álbum com o cantor australiano Scott Mathew “Life is Long”. Como é que se conheceram?

Conheci o trabalho do Scott, precisamente porque vi um filme em que ele compunha a música, o “Shortbus” e fiquei a gostar muito da voz dele. Depois quando estava a preparar um disco meu, – normalmente tenho muitas colaborações de músicos que convido – numa das músicas que estava a criar pensei logo na voz do Scott e entrei em contacto com ele.

Na altura ele estava numa tournée na Alemanha e não podia vir a Lisboa gravar, mas acabou por fazê-lo num estúdio na Alemanha. Só nos conhecemos seis meses depois, porque o convidámos para participar em 4 ou 5 concertos em Espanha e Portugal. Houve ali uma empatia muito grande e uma vontade de fazermos mais coisas juntos.

Fizemos logo um segundo tema que se chama “Enemies” e começámos a tocar nesse concerto. A forma como íamos fazer o disco era para nós muito saudável, tínhamos dois ou três anos para fazer o trabalho, não havia pressão nenhuma. Ele tinha um disco que ia sair em breve, eu também tinha o meu disco quase pronto e, portanto, fomos fazendo aquilo um pouco à distância. Apesar de parecer um pouco estranho de início acabou por resultar, porque eu mandava-lhe as minhas ideias e o Scott fazia algumas melodias de voz e enviava-me, portanto, tínhamos a liberdade total para fazermos o que queríamos.

“Life is long” é o nome do álbum. Porquê este nome?

É o nome de uma das músicas que eu e o Scott gostamos mais do álbum e foi o Scott que deu este título a uma letra que fez. Depois sugeri que o disco se chamasse “Life is long”, parecia-me um título que tinha alguma força e que tinha que ver um bocadinho com este universo, quase romântico que existe neste trabalho, nestas canções em inglês, para cordas, para sopros e acabou por ficar este nome.

Dia 8 de junho vão estar os dois no NOS Primavera Sound, no Porto. E depois, como está a vossa agenda?

Sim, vamos. Depois no dia seguinte vamos estar em Sintra, penso que temos mais 15 ou 20 concertos marcados até ao final do ano, alguns na Alemanha, Espanha, Portugal, no Luxemburgo. E realmente estamos contentes, porque não esperávamos ter tantos concertos. Já tivemos uma tournée em março, na Alemanha e na Áustria, na Suíça e em Itália e correu muito bem. Somos seis com o Scott, portanto bateria, baixo, guitarra, violino, sintetizadores e trombone. Estou outra vez a fazer um trabalho ligeiramente diferente do que fiz há uns anos e isso para mim é importante.

Disse que levou 3 anos a fazer este trabalho, mas normalmente demora esse tempo a fazer outros trabalhos. É esta falta de pressão que faz com que as suas músicas sejam tão apreciadas?

Há momentos em que nos sentimos mais criativos que outros e isso não há nada a fazer. Eu não quero editar um disco com coisas em que eu não sinta que fiquei contente. É evidente que não procuro a perfeição, mas quer dizer, o que nós sentimos como músicos é muito importante.

Mas na verdade quando ouvimos a sua música é isso que se sente, quase como algo transcendente que nos leva a uma outra dimensão. É isso que pretende transmitir?

Eu acho que a minha música é boa talvez para meditar, que transmite paz e tem esse lado quase meio filosófico, as pessoas podem estar a pensar nas suas vidas e a ouvir estas músicas. Normalmente gosto de ter pelo menos um ano em que eu sei que vou compor 20, 30, 40 ideias e depois há uma altura em que eu sinto que já há coisas que podem resultar e a partir daí começo a trabalhar com os músicos. Depois é um processo mais rápido, porque já estão as bases feitas. Neste momento já estou a meio do processo de composição do próximo trabalho e gostaria de gravar em fevereiro ou março do ano que vem. Tenho se calhar 10 ou 12 ideias.

Mas será um álbum só seu ou com parceria?

Será só meu para já, o Scott também está a preparar um disco dele, mas é evidente que não ficou afastada a possibilidade de voltarmos a fazer um trabalho juntos, pode ser daqui a 4 ou 5 anos, não sei e claro que se houver pedidos tentaremos que exista um período em que possamos tocar este trabalho que fizemos.

Ainda voltando à inspiração das músicas. Como se processa com o Rodrigo?

É um processo natural, muito intuitivo. Muitas vezes chegamos ao final de um dia e sentamo-nos a tocar uma música ou duas e sai qualquer coisa que eu grave. Porquê? Pode ser por ter ido a algum sítio nesse dia, ter visto alguma pessoa. É evidente que as viagens, as pessoas que nos rodeiam, as ruas, tudo isso acaba por depois fazer parte da inspiração que procuramos para fazer música, a parte que é muito interior que nós não conseguimos explicar, que vem de dentro de nós, mas o meio que nos rodeia também é muito importante.

É uma pessoa calma?

Não sou muito calmo, mas procuro alguma calma com a minha música, para mim próprio e para as outras pessoas. Mas eu levo uma vida muito agitada, não consigo estar 15 minutos no mesmo sítio, portanto não sou exatamente aquilo que a minha música transmite.

O Scott Mathew não é a única colaboração que teve nos seus discos.

O Scott foi o primeiro trabalho que eu fiz de parceria um disco inteiro. Mas já trabalhei com cantores como a britânica Beth Gibbons, as brasileiras Andriana Calcanhoto e Rosa Passos, o irlandês Neil Hannon, imensas pessoas que eu acho que acrescentaram bastante àquilo que eu estava a tentar fazer.

Quais são os seus ídolos na música?

Tenho músicos como o argentino Astor Piazzolla, o japonês Ryuichi Sakamoto, mais recentemente o islandês Ólafur Arnalds. São uma corrente de novos pianistas que eu penso que surgiu há poucos anos, que tem uma abordagem à música eletrónica e que tocam piano acústico.

Rodrigo Leao_2

Tem 3 filhos, gostam de música?

Tenho duas raparigas e um rapaz, estão os três numa escola de música que é a AMAC – Associação Musical dos Amigos das Crianças. Penso que lhes faz muito bem, mesmo que nenhum venha a seguir a carreira de músico. Eles gostam, estão contentes. É bom ver os meus filhos a aprenderem a tocar, coisa que eu não fiz.

A sua mulher, a Ana Carolina, faz algumas das letras para as suas músicas. Como é ter ao lado uma pessoa que partilha dos mesmos gostos?

A Carolina aprendeu piano em pequena. O escrever começou por ser quase uma brincadeira. Um dia estávamos no estúdio e eu disse-lhe: “Carolina não te importas de tentar escrever – estávamos a fazer o Pásion – um esboço de uma letra em castelhano para fazermos aqui uma experiência no estúdio?”

E aquilo resultou bem, é evidente que ela não gosta nada de aparecer e ter destaque, mas é a pessoa que está mais perto de mim e que acompanha as coisas que vou fazendo desde início. É talvez a pessoa que perceba, às vezes até melhor do que eu, o que é que aquela música possa transmitir. E depois faz umas letras simples e que eu acho que resultam muito bem.

É importante ter assim alguém ao meu lado, mas também dá discussão, há músicas que a Carolina gosta mais do que de outras e é a pessoa que nós ouvimos a sua opinião, quando estamos em estúdio a trabalhar.

Rodrigo, Onde quer Ir com a sua música?

A minha música transmite alguma calma, para mim, eu que tenho uma vida muito agitada, e acaba por ser quase um refúgio. É uma mistura de um mundo que está dentro de mim e o mundo que me rodeia. 

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *