Varsóvia, a cidade renascida das cinzas

Varsóvia é uma cidade acolhedora, bonita e cheia de luz, mas um pouco trágica. Os contrastes da sua história são evidentes, de uma esplêndida capital do século XVII à aniquilação total durante a segunda guerra mundial. Mas apesar de manter bem vivas as memórias recentes, é uma cidade virada para o futuro, bem-disposta e com gente interessante que, não esquecendo o seu passado, procura o melhor que a cidade tem para lhe oferecer.

Varsóvia - Jardim Saxónico
Jardim Saxónico

Varsóvia é a única cidade de 700 anos que se pode considerar novinha em folha. Um paradoxo? A cidade foi totalmente destruída em 1944, na II Guerra Mundial, como repressão pela resistência polaca à ocupação alemã. A revolta de Varsóvia, que irrompeu contra os invasores alemães ditou a sua sentença.  A capital foi reduzida a ruínas, com a intenção de obliterar séculos de tradição. Nenhuma outra cidade, em nenhum outro país afetado pela guerra chegou a tal desolação. Mas Varsóvia reergueu-se e recomeçou a construção no dia seguinte à partida dos alemães.

Encontramos agora uma cidade que nasceu de quadros e fotografias de época, onde encontra como centro nevrálgico a praça da

Varsóvia - Cidade Velha
Varsóvia – Cidade Velha

Cidade Velha, Stare Miasto, por onde passa grande parte da vida desta metrópole. A Cidade Velha data do século XIII e é a zona mais antiga da cidade. Foi reduzida a cinzas durante a Revolta de 1944. Após três semanas de combate, não existia um único edifício intacto. Toda esta zona tem um charme muito clássico.  A sua reconstrução foi um exemplo emblemático para todos os monumentos históricos de Varsóvia. Um grupo de renomados arquitetos e ambientalistas projetaram a reconstrução das casas dos comerciantes ao redor da praça, recuperando as formas contemporâneas dos séculos XVII e XVIII. As ruas estreitas confluem para a praça central, rodeada de magníficos edifícios, casas coloridas e a estátua da sereia, centro das atenções e símbolo da cidade. Em 1980 a UNESCO declarou a Cidade Velha como Património Mundial da Humanidade.

Vagueando pelas ruas estreitas, passamos pelo Barbacã e pelo que ainda resta das antigas Muralhas da cidade, em direção à Praça da Cidade Nova. Mais uma vez, por aqui tudo foi reconstruído após a Guerra: a igreja do Espírito Santo, a igreja S. Jacek, a Igreja da Visitação da Virgem Maria e a igreja de S. Kazimierz. Varsóvia é uma cidade com grande devoção católica, representada pelo vasto número de igrejas, de diferentes estilos e origens, que encontramos em cada rua. Destacam-se ainda a Catedral de S. João, a Igreja Jesuíta e a Igreja de S. Martim.

Varsovia - Praça Zamkowy
Praça Zamkowy

Ainda na zona histórica é quase impossível não perceber a presença imponente do Castelo Real, edifício que domina todo o lado direito da Praça Zamkowy, rivalizando atenções com a Coluna de Zygmundo, outro ex-líbris da cidade e mártir às mãos dos soldados alemães. O Castelo é outro símbolo da reconstrução de Varsóvia do pós-guerra e onde podemos encontrar uma coleção de pinturas de Bernardo Bellotto, fundamentais como memória do passado para a reconstrução da cidade.

Outro ex-líbris de Varsóvia é o Palácio da Cultura e Ciência. Quando chegamos à cidade é difícil não reparar de imediato neste

Varsóvia - Palácio da Cultura e Ciência
Palácio da Cultura e Ciência

gigante edifício que se vê de quase todos os pontos. É um “presente” da União Soviética para assinalar a reconstrução da cidade. Um presente, segundo dizem, do próprio Estaline. É, até hoje, o edifício mais alto de Varsóvia com 237 m, desde as suas fundações até ao espigão. Tem 44 andares, abrigando 3000 quartos onde podem ser encontrados quatro teatros, um cinema, duas orquestras, dois museus, duas bibliotecas públicas e um ponto de informação de Turismo.  É um exemplo perfeito da arquitetura socialista-realista e é um símbolo do domínio soviético. Já foi alvo de várias propostas de destruição, mas até à data continua a fazer sombra sobre a cidade.

Em contraponto ao Palácio da Cultura, encontramos o Jardim Saxónico, um espaço de calma e descontração na cidade. É o primeiro parque público da Polónia localizado nos terrenos do antigo Palácio Saski,  do qual apenas restaram as colunas que abrigam o Túmulo do Soldado Desconhecido. O Jardim é decalcado dos jardins franceses de Versailles, está repleto de castanheiros e estátuas barrocas (alegorias das virtudes, às ciências e aos elementos) e tem um lago ornamental e uma torre de água do século XIX sob a forma de um templo grego circular. É o local ideal para passear ao final de tarde, descansar nos seus bancos ou apenas ficar a admirar as cores vivas que por ali abundam.

Varsóvia - Monumento da Revolta
Monumento da Revolta

Apesar de ser uma cidade virada para o futuro, as memórias da guerra encontram-se espalhadas pela ruas e praças. Nas paredes encontramos placas de ar sinistro com inscrições e números que não compreendemos. Estas placas são uma das mais impressionantes memórias que os habitantes de Varsóvia fazem questão de manter e homenagear. São 1500 espalhadas por toda a cidade e assinalam o local onde ocorreram execuções em massa de habitantes de Varsóvia. Os números indicam as pessoas que ali foram executadas pelos soldados nazis. O mais importante e emblemático memorial da cidade à guerra é o Monumento da Revolta de Varsóvia. Foi inaugurado em 1989 e comemora os heróis do histórico levantamento de Varsóvia que aconteceu a 1 de agosto de 1944 e que tentou colocar fim à ocupação nazi da cidade. O monumento representa as diversas frentes em que os insurgentes lutaram, a defender as barricadas e a entrar e a sair dos esgotos de onde espalhavam a batalha pelos diversos pontos da cidade. Junto ao monumento podemos encontrar uma das entradas para o esgoto usadas pelos revolucionários.

O outro lado menos conhecido da cidade e que também está intrinsecamente ligado à memória da guerra é a sua herança judaica. Até à II Guerra Mundial a comunidade dos judeus em Varsóvia correspondia a cerca de 30% da população total da cidade, contando, entre eles, um Prémio Nobel, diversos escritores, médicos e professores, atrizes e compositores conceituados. A eclosão da guerra marcou o fim do mundo conhecido até então para os judeus de Varsóvia. Em outubro de 1940, os alemães criaram um gueto onde encerraram 350.000 judeus.

Varsóvia - Muro GuetoO Gueto de Varsóvia foi o maior gueto judaico estabelecido na Polónia. Foi construído em 1940 e estava cercado por uma parede de 3 metros de altura. A fronteira do gueto atravessava ruas, praças e quintais. Estava dividido entre o “pequeno” e o “grande” gueto, separados por uma ponte pedonal que servia de local de transferência de prisioneiros. Em 1943 o gueto foi completamente exterminado, após a Revolta do Gueto, e deitado abaixo. Através do filme “O Pianista” de Roman Polanski que retrata a vida no gueto judaico de Varsóvia, é possível ver a destruição que assombrou a cidade. Um dos locais mais emblemáticos onde podemos encontrar vestígios do muro é nas ruas Sienna 55 (entrada da ul. Złota 62) e Waliców 11, onde ainda existem pequenos fragmentos da parede e na calçada, em alguns pontos da cidade, encontra-se uma gravação que percorre o traçado do muro.

Varsóvia - Muro Gueto1

Outro marco importante da história dos judeus durante a Guerra é o Monumento aos Heróis do Gueto inaugurado no quinto aniversário do início da revolta, quando a cidade se encontrava ainda em ruínas. O monumento assinala o desafio heroico dos judeus confinados no gueto de Varsóvia. A revolta durou cerca de um mês e foi a maior revolta levada a cabo pelos judeus durante a II Guerra Mundial. O monumento é coberto com lajes de pedra encomendadas durante a guerra pelos alemães, com o objetivo de construir monumentos comemorativos da vitória alemã na guerra. Entre a Umschlagplatz e o Monumento aos Heróis do Gueto foi constituída a Rota Memorial do Martírio e Luta dos Judeus, um percurso assinalado com 15 blocos de granito pretos que homenageiam proeminentes residentes do gueto.

Varsóvia

Varsóvia pode não ter das histórias mais felizes, mas é uma cidade que soube reerguer-se de todas as adversidades que a história tem colocado no seu caminho. No entanto, quando olhamos para Varsóvia com uma perspectiva histórica encontramos uma cidade cheia de energia e que sem dúvida merece uma visita.

 

Guia Prático
Como ir:

A TAP tem voos regulares diários para Varsóvia. E caso o objetivo passe por visitar também Cracóvia pode-se optar por voo ida-volta Lisboa-Varsóvia e fazer a ligação a Cracóvia de comboio ou voos multicity, chegar a uma cidade e partir da outra. Das contas que fiz na altura esta opção fica um pouco mais dispendiosa, mas é também a mais confortável. Eu como gosto de andar de comboio não tive grandes dúvidas na escolha.

 

Onde ficar:

Varsóvia tem diversas opções desde o famoso Hotel Bristol (o mais elegante e exclusivo da cidade) a pequenos Hostels. O  Dream Hostel é uma excelente opção. Um hostel local, genuíno e com uma localização excecional (a 1 minuto do Castelo). Ambos os alojamentos ficam perto da Cidade Velha, o coração da cidade e a zona mais animada. Existem ainda inúmeras opções de hotéis maiores e mais modernos no centro da cidade, junto à Estação Central mas este “centro”, fica a cerca de 20 minutos a pé da Cidade Velha.

 

Como se deslocar:

Varsóvia é relativamente pequena e é fácil fazer quase tudo a pé. Para se poder poupar as pernas existem boas alternativas como os elétricos e o metro que, apesar de ter apenas duas linhas, permite percorrer distâncias maiores. Os bilhetes para os transportes podem ser comprados nas paragens ou no seu interior.

 

Varsóvia - zurekOnde e o que comer:

A comida é toda excelente e muito variada, com algumas inspirações russas. Desde os Pierogi, uma espécie de Dumplings com os mais diversos recheios, aos pratos mais sérios como a perna de porco, o entrecosto, as sopas, o Bigos, uma espécie de estufado similar à nossa feijoada. Para quem é apreciador de comida internacional o ideal é experimentar os pratos mais variados. Não encontrei nenhum prato que não gostasse.

O melhor restaurante onde tive a oportunidade de comer foi o  Bazyliszek. Comida local de grande qualidade, doses generosas e a pingar de sabor. É mesmo muito bom. Outra boa opção é o Zapiecek, uma espécie de cadeia local de comida essencialmente tradicional onde a grande especialidade são os pierogi.

Os preços são inacreditáveis até mesmo para o que estamos habituados em Portugal. O custo por pessoa varia entre os 10€ e os 12€, por verdadeiros repastos com entradas e pratos de tamanho mais do que generoso.

 

A moeda:

A moeda é o zloti (PLN) e quando comparada com o euro é significativamente inferior, pelo que o câmbio e as compras são bastante favoráveis.

 

Duas ou três palavras:

Bom dia/Boa tarde – dzien dobry (Gin dobrey)

Obrigado – dziekuje (gin-ku-ye)

Adeus – do widzenia (doe vizenya)

Desculpe – przepraszam (psheh-prash-am)

 

Por Sónia Dias

Blog de Viagens | Travel Random Notes 

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