Autor do livro “Senhora da República” fala na primeira pessoa

Pedimos ao jornalista e autor do livro “Senhora da República”, Licínio Lima, para nos contar na primeira pessoa o porquê desta obra. Um livro em que o fenómeno de Fátima surge como uma revolta política do Povo português contra as políticas ateias e anticlericais da Primeira República.

Fátima, com o maior santuário mariano português, um dos mais famosos do mundo, é sempre lugar a onde ir… Porém, o que vemos, ouvimos e lemos naquele sulco da Serra de Aire, também famoso pelas grutas majestosas a visitar, não se encontra lá…

A visita remete-nos para uma misteriosa história de três crianças que dizem ter avistado Nossa Senhora em cima de uma pequena azinheira. O lugar desse encontro divino-humano terá acontecido ali, na Cova da Iria, lugar de pasto para ovelhas e cabras no remoto ano de 1917. A 13 de maio foi o primeiro, seguindo-se mais seis no mesmo dia dos meses sequentes. A exceção foi em agosto porque o administrador do concelho decidiu naquele dia levar os miúdos para sua casa, em Ourém. Por isso, o encontro combinado pela Senhora só iria concretizar-se a 19, num lugar próximo de Aljustrel chamado Valinhos ­ que também pode ser visitado. Mas, essa quinta aparição manteve-se sempre assinalada a 13, conforme a data prevista no primeiro encontro. A alteração é encarada como um mero incidente provocado por aquele homem que a história iria epitetar de “algoz dos pastorinhos”.

Esse administrador chamava-se Artur de Oliveira Santos. Era um racionalista, ou livre-pensador – como, à época, eram chamados os que, como ele, negavam o divino e se oponham absolutamente a qualquer tipo de influência eclesial na sociedade. Por isso se afirmavam também anticlericais. Além de serem, claro, antimonárquicos. Em geral, esses racionalistas-positivistas eram membros de lojas maçónicas tendo sido, eles, os grandes protagonistas da revolução de 5 de outubro de 1910 – que deu início à I República com a queda da monarquia.

O administrador pertencia à loja Acácia de Lisboa, iniciado com o nome de Xavier. A República durava há sete anos e sentia-se uma cada vez menor influência da Igreja na sociedade: O divórcio começara a ser permitido; o ensino religioso deixara de existir nas escolas públicas; as paróquias eram geridas, em geral, por membros da Maçonaria, através das chamadas associações cultuais; as procissões públicas estavam proibidas; a religião cristã deixara de ter um estatuto oficial; os bispos eram desterrados e muitos padres expulsos das suas paróquias; a perseguição à Igreja por republicanos radicais, ligados, sobretudo, à Carbonária (braço armado da Maçonaria), era real e violenta .Tornara-se , pois, nítida a influência materialista cada vez maior na sociedade portuguesa a par de uma visão religiosa cada vez mais enfraquecida. Deus teria de morrer, na perspetiva dos livres-pensadores. Afonso Costa, um dos rostos da I República, previa acabar com a religião em duas gerações. Isto mesmo terá anunciado quando fez aprovar, em 1911, a chamada Lei da Separação dos Estado das Igrejas ­ diploma que retirou à Igreja Católica toda a sua autonomia e independência, assim como a liberdade de organização.

“Portugal vivia um período dramático de instabilidade”

Era este o contexto político-social a 13 de maio de 1917, o dia da primeira visão, a par do terror provocado pela Primeira Guerra Mundial que começava a contar com participação de soldados portugueses enviados, primeiro, para as Colónias africanas e, depois, para França. Portugal vivia um período dramático de instabilidade: os governos duravam poucos meses, as manifestações de rua eram frequentes, os alimentos escasseavam. Havia fome. No ano seguinte, o presidente Sidónio Pais criaria a Sopa dos Pobres…

Desiludido com as expetativas geradas pela revolução de 5 de outubro, que anunciavam prosperidade, e sem perceber que políticas eram aquelas que até proibiam as procissões religiosas na rua, o povo ouviu dizer que a Mãe de Jesus aparecia na freguesia de Fátima, num lugar chamado de Cova da Iria. Os videntes eram crianças: duas meninas de sete e 10 anos, e um rapaz de nove, residentes num lugar da mesma freguesia chamado de Aljustrel.

Em junho, na segunda aparição, deslocaram-se à Cova da Iria cerca de 60 pessoas. No mês seguinte contaram-se cerca de duas mil. O jornalista do jornal “O Século” foi lá nesse dia e fez a reportagem. No mês seguinte juntaram cerca de cinco mil, mas a Senhora não apareceu porque o administrador raptou os miúdos. Em setembro foram cerca de 20 mil e mais de 60 mil em outubro.

O fenómeno de Fátima em seis meses mobilizou milhares de pessoas, embora a Igreja tivesse demorado 13 anos a declarar a credibilidade das aparições. Aquelas três crianças desafiaram os princípios ideológicos e teóricos que serviam de suporte à República materialista e anticlerical. Artur de Oliveira Santos tentou de muitos modos, com o apoio de toda a Maçonaria instalada na máquina do Estado, travar o fenómeno. Proibia cerimónias religiosas na Cova da Iria, promovia sessões de esclarecimentos por parte de movimentos ligados aos livres-pensadores, nomeadamente através da Associação do Registo Civil. Depois da morte dos dois irmãos (Francisco em 1919 e Jacinta em 1920) tentou ainda fazer passar a ideia de que Fátima era um foco de resistência contra a República perpetrado pelos Jesuítas.

Poder-se-á pensar que tal crescendo só foi possível graças à pressão de padres e bispos sobre o povo crente. Esta é a conclusão corrente desde há décadas, interpretando o caso como um puro fenómeno religioso derivado de uma fé tradicional, supersticiosa e muito manipulada pelo clero.

“Por não acreditar nessa tese… avancei ao longo de um ano e meio para uma investigação”

Por não acreditar nessa tese, por a achar improvável, uma vez que a Igreja, à época, estava “meio tombada”, usando a expressão do escritor Raúl Brandão, avancei ao longo de um ano e meio para uma investigação.

Antes, porém, fui a pé ao santuário da Cova da Iria, desde Lisboa, durante três dias, com a minha filha de 15 anos. Foi uma experiência soberba. E logo um milagre aconteceu. Nunca tinha vivido tão profundamente a experiência da paternidade. Quando me separei tinha a Beatriz ainda cinco anos e, desde então, os contactos eram os da rotina. A caminho de Fátima, muitas vezes debaixo de temperaturas de mais e 40 graus, só os dois, falando todas as palavras que queríamos dizer, sem tempo, apenas um com o outro, frescos pela manhã ou com dores de quilómetros de caminhada ao fim do dia, de mãos dadas na estrada ou seguindo um à frente e outro atrás pelos desfiladeiros da Serra, percebi que tinha uma filha maravilhosa… a mais linda do mundo. Percebi que, afinal, o milagre acontece nas nossas vidas quando paramos para contemplar o outro… Sem tempo e sem medida…

Depois daquela caminhada concentrei-me na investigação e surgiu o livro “Senhora da República” que aqui apresento, editado pela Marcador. A conclusão a que chego difere muito das teses tradicionais. Não. Fátima não é um fenómeno religioso perpetrado por clérigos oportunistas com recurso à inocência de três crianças para ludibriar o povo de pão faminto. Fátima é, sim, uma reação política do povo contra políticas humanamente desestruturantes e fraturantes… É uma reação perante a ameaça de chacina da identidade de uma Nação. Fátima é a vergonha dos políticos que promoveram políticas violadoras do ser pessoa. Fátima é uma revolta.

Por isso, quando pensamos a onde ir… e vamos a Fátima, nem sempre encontramos o que lá está. Naquele lugar, sem o vermos, está um Povo crente que exige respeito pela sua identidade. Está um Povo com valores que recusa ser outra coisa que não ele próprio. Do ventre dessa recusa nasceu o fenómeno que já atraiu a visita de quatro Papas… Em Fátima venera-se a alma do ser português…

Muito modestamente recomendo a leitura do livro “Senhora da República”. Simplesmente para que se perceba que é ingénuo pensar que se pode pensar a política sem a religião… Quem julgue que é possível separar política da religião é porque ainda não entendeu nada do profundamente humano… 

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