Berlim, a Fénix renascida das cinzas

Berlim é a Capital da Alemanha reunificada (até 1990 era Bona), resultou do maior projeto de reconstrução do pós-guerra. A cidade tem talvez das histórias mais conturbadas do século XX e convive, à conta de erros que lhe são alheios, com as cicatrizes dessa história. Encontramos, por todo o lado, marcas de um passado recente que quase destruiu uma das mais importantes e grandiosas cidades alemãs.

Mas Berlim renasceu e é atualmente uma metrópole vibrante, cheia de vida e energia e tem vindo a ser considerada um dos maiores exemplos de modernidade. Amplas avenidas, pulmões verdes espalhados por toda a cidade, ruas limpas, parques e praças cheias de esplanadas convidativas, Berlim soube colocar o seu passado trágico para trás e emergir mais forte e grandiosa que nunca.

Um dos mais emblemáticos símbolos da Alemanha reunificada é sem dúvida o Reichstag, um dos edifícios mais simbólicos de Berlim. Foi destruído durante a II Guerra Mundial e reconstruído no pós-guerra, mantendo a sua arquitetura e acrescentado a moderna cúpula, cujas vistas da cidade são amplamente apreciadas. A enorme cúpula de vidro tem 137 metros de altura e 97 de largura e é uma extraordinária obra de design e engenharia. A visita é gratuita, mas deve ser reservada em antecipação no site. Faz parte de qualquer roteiro à Berlim, assim como a grandiosa Porta de Brandemburgo, um dos mais importantes ex-libris da cidade, principal símbolo da cidade. Ali tiveram lugar as mais variadas comemorações e entusiásticas manifestações.

Para descansar, almoçar ou apenas passear, nada melhor que o Gross Tiergarten, o maior jardim da cidade com cerca de 200 hectares de espaços verdes, caminhos pedonais, lagos e muita sombra. Após a II Guerra Mundial, foi dizimado pelos berlinenses, que cortaram as suas árvores para terem lenha para se aquecer e usaram os seus vastos terrenos como campos de cultivo para terem o que comer. Hoje é um dos locais de lazer preferidos da cidade.

Berlim é uma cidade para se conhecer a pé e depois de um passeio pelo Gross Tiergarten, nada melhor do que descer a Unter den Linden, a mais emblemática e acarinhada avenida da cidade, até à Catedral. Nesta avenida localizam-se alguns dos mais importantes edifícios da cidade – a Staatsoper (opera), a Humboldt-Universität, o Opempalais (Palácio das Princesas), o Kronprinzenpalais (em tempos foi a residência dos herdeiros do trono), a imponente Embaixada Russa e o Deutsche Guggenheim, assim como a Bebel Platz, onde podemos encontrar o memorial que recorda os anos da queima de livros pelo regime nazi. No final da avenida os nossos olhos são atraídos para o grandioso edifício da Berliner Dom (Catedral). A sua cúpula impressionante oferece uma das mais espetaculares vistas da capital alemã. O jardim em frente à catedral, o Lustgarten, é, se estiver bom tempo, o espaço ideal para descansar, lanchar, dormir ou apenas apreciar a vida e o movimento desta zona da cidade.

A mesma reúne ainda um complexo arquitetónico histórico e alguns dos mais importantes museus do Mundo, tendo sido considerada Património Cultural da UNESCO. Aqui podemos encontrar o Pergamonmuseum, a Alte Nationalgalerie, o Bode-Museum, o Altes-Museum e o Neues Museum. Recomendo guardar um dia só para visitar esta zona e os seus museus.

Berlim é também conhecida pelas suas praças emblemáticas, onde se destacam a Alexander Platz e a Potsdamer Platz. A primeira foi considerada o Centro de Berlim nos tempos da Guerra Fria, fica a meia dúzia de passos da Catedral e é um local onde se respira história. É uma praça animada, ponto de encontro de uma cidade jovem e que procura diversão. Nesta praça ergue-se a torre de televisão – Fernsehturm – com 365 metros de altura, visível de quase todo o lado e o curioso relógio do Mundo, o Weltzeituhr. A Potsdamer Platz foi atravessada pelo muro de Berlim e deixada ao abandono durante décadas. Após a reunificação alemã foi reconstruída e é atualmente um dos locais mais emblemáticos e movimentados da cidade. Do seu passado alberga apenas alguns pedaços do muro, uma parte do mítico Hotel Esplanade, o primeiro semáforo da Europa e o Weinhaus Hurth, o único edifício que sobreviveu à guerra.

Esta cidade é literalmente um museu ao livre sobre a II Guerra Mundial. Por todo o lado encontramos símbolos, memorias e locais que contam uma parte da trágica história desta guerra devastadora. Um dos locais mais duros de visitar é o Memorial do Holocausto que presta homenagem aos seis milhões de judeus vítimas do regime nazi. O Memorial está localizado entre a Postsdamer Platz e a Porta de Brandemburgo e é uma área de 19.000 metros quadrados, coberta com 2.711 blocos de cimento que simbolizam as vítimas assassinadas nos campos de concentração. Por coincidência, ou não, ali mesmo ao lado localizava-se o Bunker onde o Hitler se refugiou no final da guerra e onde acabou por se suicidar. O Bunker ficava a cinco metros de profundidade, protegido por mais de quatro metros de cimento armado, tinha trinta salas espalhadas por dois pisos, saídas na construção principal e uma saída de emergência e estava equipado com um sistema de ventilação contra gases venenosos, geradores a gasóleo e portas de aço. Foi demolido no pós-guerra e hoje não passa de um parque de estacionamento com uma placa indicativa da má memoria.

A Topografia do Terror é outro dos locais que visitamos quase em silêncio. Aqui se localizavam, entre 1933 e 1945 a principal polícia secreta Nazi, o Comando das SS e a Central de Segurança do Reich. Os edifícios foram destruídos e no seu local encontramos agora diversas exposições sobre o regime nazi: as suas medidas totalitárias, as forças de opressão e supressão de liberdades, a propaganda, o estimular de um regime racista e xenófobo e o premiar da “raça” ariana e das famílias tradicionalistas. É um espaço onde ficamos com uma ideia do percurso que levou à II Guerra Mundial e a todas atrocidades cometidas pelo regime nazi e em particular pelos seus mais altos representantes e instituições.

Devastada pela guerra, Berlim vê-se depois divida e rasgada devido a um pós-guerra mal resolvido em que todos os vencedores quiseram uma parte da cidade para demonstrar a sua força. O lado oriental passou a ser a capital, enquanto que o lado ocidental se tornou um enclave da Alemanha Ocidental. Assim nasce o Muro de Berlim, a maior e mais polémica de todas as fronteiras, que pode ser encontrada por toda a cidade, como uma cicatriz que queremos manter para nunca esquecer. Cercada pelo muro, Berlim viu-se mais uma vez envolvida numa “guerra” que não tinha pedido, maltratada e rasgada pela ganância dos “vencedores”. Durante décadas separou famílias, amigos e vizinhos, foi a causa de mortes e fator de separação de uma cidade e de um país. Com 155 metros de comprimento e 3,60 de altura, o muro dividiu a cidade de 1961 a 1989. Durante a sua existência mais de cinco mil pessoas conseguiram fugir, mais de três mil foram capturadas e 152 morreram. Um dos maiores exemplos desta separação é a Bernauer Straße onde hoje podemos encontrar o Memorial ao Muro. Esta rua foi rasgada pelo muro, com casas cortadas ao meio, famílias, amigos, casais separados de forma violenta. Outro local emblemático é a East Side Gallery, um dos maiores fragmentos Muro de Berlim ainda existentes, localizada na Mühlenstraße, nas margens do Rio Spree. Preservada da demolição devido às 105 pinturas de artistas de todo o mundo, iniciadas em 1990 aqui representadas. É uma das maiores galerias ao ar livre do mundo, com mais de 1 km de extensão.

O Check Point Charlie é outro local que guarda as memórias do pós-guerra. É a mais famosa fronteira de Berlim. O nome deriva do alfabeto fonético da NATO em que cada letra do Alfabeto corresponde um som (Alpha a letra A, Bravo a letra B e Charlie a letra C). O Checkpoint Charlie tornou-se um símbolo da Guerra Fria, representando a separação leste e oeste.

O melhor de outros mundos ou outros locais a visitar se tiver tempo:

O Scheunenviertel é o antigo bairro judaico de Berlim e atualmente mantém-se como uma pequena vila parada no tempo dentro da grande metrópole que é Berlim. Ideal para um passeio apreciando a Igreja Sophienkirche, o cemitério judaico, a Neue Synagoge e a fachada do antigo edifício dos correios, ricamente ornamentada. A Sophienstrasse tem um conjunto de lojas tradicionais muito engraçadas e pela Oranienburger Strasse encontram-se diversos vestígios da cultura judaica.

Se sobrar tempo, recomendo uma passagem pela Karl-Marx-Allee, a mais famosa avenida da Alemanha comunista. Localizada entre a Strausberger Platz e a Frankfurter Tor, está ladeada por edifícios de estilo soviético dos anos 50′. É uma avenida impressionante e que mostra de forma clara a força da presença das forças russas nesta cidade.

Apesar de viver com as marcas de um passado recente Berlim não é de todo uma capital presa ao passado. É uma cidade voltada para o futuro, moderna, cosmopolita, vibrante e com ambições de ser a melhor. É orgulhosa e por isso nos deslumbra todos os dias com a sua eficiência e grandeza, marcando presença na vida dos berlinenses e de todos que por lá passam e que não lhe ficam indiferentes.

 

 

Guia Prático

Como ir: De avião

Quando ir: na primavera é a melhor altura, menos frio mas se não tiver medo do frio o inverno pode ser muito divertido, com a cidade coberta de neve.

Onde ficar: Em Berlim existem diversas opções e grandes cadeias hoteleiras. Recomendo o hotel Gat Point Charlie, um hotel moderno, que fica perto do centro da cidade e com preços bastante acessíveis.

Como se deslocar: essencialmente a pé, apesar de Berlim ser uma cidade bastante ampla. Existem também a possibilidade de utilizar as bicicletas que estão espalhadas por toda a cidade. O aluguer é bastante acessível e é uma forma de ver a cidade local style.

O que comer:  Bratwurst, a típica salsicha alemã, Apfelstrudel ou folhado de maçã e o Schweinsbraten – assado de porco.

 

Por Sónia Dias

Blog de Viagens | Travel Random Notes 

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