Celeste Rodrigues celebra 73 anos de carreira em concerto único

Celebrar 73 anos de carreira não é para todos, muito menos se tivermos 95 anos e ainda cantarmos o Fado. Que o diga a fadista Celeste Rodrigues, que no próximo dia 11 de maio, a partir das 21h30, no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, dará um concerto para comemorar “entre amigos” a proeza, como confessou durante um chá com jornalistas.

Por Sandra Martins Pereira

Bem-humorada, de uma simplicidade única, a sua grandiosidade ultrapassa em muito os seus 1,57 metros de altura. Uma postura de só quem viveu quase um século consegue transmitir a nós meros mortais.

A sua energia é contagiante e perpassa em cada palavra ou sorriso com que nos brinda. Celeste Rodrigues é assim, surpreendente. Confessa que ainda continua a sonhar acordada, porque a dormir não gosta: “Sonho constantemente, ainda sonho que vou andar cá mais 10 anos e sonho-o alto.” [risos]

Para o espetáculo de dia 11 de maio, pretende juntar sobretudo amigos e tem muitos como nos diz. Cátia Guerreiro, Fátima Rebordão, Jorge Fernando, Hélder Moutinho, Teresinha Landeiro são alguns dos artistas que convidou para partilhar o palco do Teatro Tivoli BBVA, e nem o bisneto Gaspar vai faltar: “O meu Gaspar vai acompanhar-me à guitarra, que aprendeu a tocar por minha causa, acho que ele gosta tanto de Fado como eu”, afirma.

Já levou o seu timbre além-fronteiras, a salas prestigiantes, como Concertgebouw, Carnegie Hall ou Cité de la Musique, sempre com um regresso à sua casa portuguesa. Ainda hoje mantém-se ativa e eleva a voz no Café Luso, no Bairro Alto, às sextas-feiras e sábados, no restaurante Mesa de Frades, em Alfama, às quartas-feiras e no restaurante Fado Menor, em Lisboa, às quintas-feiras.

“Também cantava no Bacalhau de Molho, mas fui até Nova Iorque e acabei por ficar por lá três meses e esqueci-me de avisar, penso que eles deviam achar que eu já não voltava [risos]”, conta Celeste, confessando que cantar a mantém viva, “o ambiente numa casa de Fado é único, vem uma pessoa e conversa, depois vem outra e eu gosto de estar perto do público, porque ali conseguimos sentir todas as suas emoções e o que é o Fado senão emoção”.

O seu percurso conta uma história de partilha, interpretações de compositores contemporâneos e vozes de outros tempos, como Argentina Santos, Alfredo Marceneiro ou Berta Cardoso. Nem sempre pensou em ser fadista, até porque “nesse tempo era muito difícil entrar no mundo da música. Eu e a minha irmã (Amália Rodrigues) começámos por cantar folclore da Beira, só depois é que entrámos no mundo do Fado. Naquela altura não se podia entrar sem ter contrato, sem ter carteira profissional, não podíamos deixar cantar ninguém, agora toda a gente entra nas casas de Fado e canta. Antigamente era o público que fazia os artistas.”

Uma coisa é certa, hoje em dia já não sente o mesmo “friozinho na barriga” como nos primeiros anos quando subia ao palco. Agora já conhece bem o público, só tem “medo de se esquecer de alguma música. Felizmente ainda tenho contratos com a minha idade, é um caso único, ninguém canta aos 95 anos, nem ninguém tem uma memória aos 95 anos para cantar sem se enganar.”

Já gravar um álbum é outra conversa, “sou muito mandriona e nós estamos sozinhos num estúdio, não há público, não há a mesma entrega e ainda por cima afastam os guitarristas de nós e estamos ali sozinhos a cantar e não dá aquele prazer que sentimos nos palcos ou nas casas de Fado onde temos o público, vemos a expressão deles, o sorriso quando acabamos”.

Questionada sobre alguma história engraçada que quisesse partilhar, Celeste Rodrigues responde: “Histórias já passaram, agora estou à espera de outras histórias, cada espetáculo que faço é mais uma história. É bom chegar a esta idade e conseguir ainda ter um bocadinho de voz para cantar, ficava muito triste se não tivesse.”

Celeste Rodrigues 73/95 é um espetáculo com produção da UAU que não vai querer perder. Preços: €10 e €25. 

One thought on “Celeste Rodrigues celebra 73 anos de carreira em concerto único

  • 26 de Abril de 2018 at 22:47
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    Parabens D. Celeste . Tudo de bom e continue a cantar sempre.
    Viva o FADO!

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