Entrevista a Tozé Brito: “Das mais de 500 canções que escrevi, não consigo apontar uma”

É muito improvável que nunca tenha ouvido uma canção escrita ou cantada por Tozé Brito. Aos cinquenta anos de carreira, o artista olha para o passado e faz um balanço em “A Memória do Amor”. Nesta conversa, Tozé Brito conta-nos o que gostaria de ser se não tivesse sido músico e o seu sítio de eleição para uma escapadela. Ainda há tempo para falar do mais recente Festival da Canção. Curiosos?

Por Wilson Ledo 

A que sabem 50 anos de carreira?

Sabem a 50 anos de vida, bem vivida e feliz, por fazer aquilo que mais gosto de fazer. Não vou dizer que estes 50 anos foram todos bons. Mas, quando olho para trás, o balanço é muito positivo. É muito gratificante pensar que passei os últimos 50 anos a fazer aquilo que mais gosto de fazer: música.

O novo álbum chama-se “A Memória do Amor”. Esta relação com a música é de amor?

Completamente. É uma relação de amor, de amizade, de respeito. É uma escolha de vida, de caminho, de percurso. É uma vontade que tinha desde criança. Comecei a aprender piano com oito anos, passei para a viola aos dez. E, para aí com 12 anos, lembro-me de começar a ouvir Beatles na rádio e de comprar os primeiros discos. Pensava que era aquilo que eu gostava de ser.

Nunca pensou numa outra carreira? Se não fosse músico, o que seria?

A coisa que eu mais gosto de fazer é escrever. Tenho-me limitado a escrever música porque tenho sido feliz a fazê-lo. Também escrevo outras coisas que até hoje nunca me atrevi a publicar, porque nunca tive tempo para as trabalhar como gostaria. Se não tivesse sido músico, teria tentado que a minha vida passasse pela escrita.

Das centenas de músicas que escreveu, há alguma que lhe seja especial?

É complicado. Umas porque chegaram mais ao público, outras que são as que eu mais gosto e não são necessariamente as mais conhecidas, outras porque foram parcerias que me deram imenso prazer, como com o Ary dos Santos ou o José Cid. Das mais de 500 canções que escrevi, não consigo apontar uma. Para selecionar as 11 canções para este disco vi-me aflito. Comecei com uma lista de 50 e fui reduzindo. Ficaram muitas de fora.

Neste álbum, a sua voz está mais ao natural. Com a idade, aprendemos a aceitar a nossa própria voz?

Mais do que a aceitar, a gostar dela. Gosto muito mais de me ouvir hoje, sem artifícios técnicos. Hoje gosto das coisas mais nuas, mais cruas, mais verdadeiras. Foi à procura disso que fui neste disco. Quando ouço a minha voz, reconheço-me. Não há truques, estou sem rede.

Esteve agora ligado ao Festival da Canção. Vimos novos talentos e vozes do futuro. Há alguma para a qual gostaria de escrever uma canção?

Para quem me pedisse para o fazer. Foi sempre essa a minha maneira de trabalhar. Eu nunca escrevi canções para telefonar depois a alguém e dizer que gostaria que ela cantasse. Espero sempre que as pessoas me contactem. Foi assim com o Tony de Matos ou a Simone de Oliveira. Tenho o maior prazer em escrever para qualquer pessoa. Interessa-me gostar das pessoas, não do género musical que elas cantam. Todos eles têm público. É uma questão de saber escrever para esse público também. No Festival da Canção ouvi vozes muito boas – outras que achei menos boas, é mesmo assim, não vamos ser hipócritas. Desejo-lhes as maiores felicidades, que continuem cá todos mais 50 anos. Estou à disposição para quem precisar de mim. Para uma letra, para uma música, para o que for.

Com os 50 anos de carreira houve álbum novo. E concertos?

Não há nada de concreto. Só ideias e planos. Há hipótese de fazer alguns espetáculos ao vivo e isso exige fazer ensaios com sete ou oito músicos, o que implica disponibilidade, subsídios e apoios.

Somos o ‘Onde Ir’ e gostamos sempre de pedir uma sugestão aos nossos entrevistados. Qual é o seu sítio de eleição?

O meu sítio de eleição é Nova Iorque. É para lá que vou sempre que quero fugir daqui, descansar de Portugal e passar despercebido, andar na rua sem preocupações. Às vezes, apetece-me num sítio onde possa andar de qualquer maneira, sem ter de fazer a barba e de me chatear com nada. Quando me apetece fazer uma coisa dessas, Nova Iorque é sempre o meu destino. 

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