O novo verso da zet gallery: Ricardo Pistola

O regresso à galeria é acompanhado por uma leitura veraneante. O britânico Bruce Chatwin (1940-1989) terminou, de forma prematura, o percurso no mundo da Arte (Sotheby’s) para se dedicar ao estudo da Arqueologia. Posteriormente, com a justificação: “Fui para a Patagónia”, despediu-se do emprego na Sunday Times Magazine e partiu em viagem. Pouco tempo depois publicou a sua primeira obra literária: In Patagonia. Dois anos antes da sua morte surge o livro The Songlines (O Canto Nómada, pela Quetzal), atual releitura.

Alexandra Lucas Coelho conta parte desta história, tendo-a intitulado de Génesis alternativo: Cada canto é um mapa, rasto de palavras e notas musicais, pistas-sonho que cobrem a terra como vias de comunicação entre as tribos mais distantes. Os aborígenes – que cortavam uma veia no braço e derramavam uma gota do seu próprio sangue no solo quando queriam agradecer à terra pelas suas dádivas – tomavam estas rotas invisíveis como “pegadas dos antepassados” ou “caminho da lei”. Os europeus conhecem-nas pelo nome de “pistas dos sonhos” ou “itinerários cantados”.

Releio os capítulos de Chatwin, como que procurando o caminho pelas vielas – muitas sem saída, forçando o recomeço. Insisto em compreender o mapeamento por cantos com um profundo respeito pelo passado e aproximo-me de um possível paralelismo com a atualidade. Inesperadamente, saio dos labirínticos centros históricos e surge a luz: a Praça San Marco, em Veneza; a Palácio de Diocleciano, em Split; o Santuário da Madonna di San Luca, em Bolonha. A viagem como um regresso a nós mesmos e a distância como possibilidade de revisitar os tempos recentes e antecipar o tanto por surgir. Penso nas marcas que não se extinguem, porque cantadas incessantemente, mas que nascem como as pegadas invisíveis d’O Canto Nómada.

O sussurro dos primeiros tempos deu lugar à sonante marca: zet gallery. Cimentou um percurso cujo atual traço é evidente. De pé firme nas origens, caminha a passos largos para o que a espera: os artistas, as coleções de arte e os espaços – e os projetos que nos transportam até ao espaço público são únicos. É este o caminho que persistimos em cantar: um crescente itinerário que gera e mapeia o melhor da produção artística contemporânea, da qual a criação de Ricardo Pistola (1980) é exemplo. A encomenda da obra de arte pelo Município de Braga para o Skate Park, inserido no renovado Eixo Desportivo da Rodovia, é ponto de paragem obrigatório. Em plena urbe, o nosso imaginário é incitado a seguir o trilho infinito das linhas para além dos limites físicos do mural.

Nota: a entrada no espaço é gratuita e o acesso pode ser feito pela Rua da Fábrica ou pela Avenida Mestre José Veiga, em Braga.

 

 

 

 

 

 

Por Catarina Martins

Head of Communication da zet gallery 

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