Gulliver ou liliputeanos

Distancio-me de qualquer isenção própria do cargo e recordo-me de uma travessia de ferry, nos anos 90. Não estou certa da nossa idade ou localização, mas consigo recriar com exatidão as nossas roupas, fitas de cabelo a afastá-lo do rosto, riscas dos vestidos rodados e das calças largas. Apaixonava-me a capacidade infinita de ouvir da Joana, enquanto nos apoiávamos no corrimão, ao sol.

Surpreende-me, desde sempre, a sua relação com a palavra, tão cuidada, ponderada, com tempo. Deslumbra-me o eco criado pela sua arte: presencial, em galeria, pelas vozes dos que diariamente a olham e digital, humanizado pelos visitantes à distância, pelos leitores do catálogo, pelos seguidores online. Através da pintura, quebra a normalidade em que nós, os outros, vivemos e, através da fenda, entra o extraordinário. A Joana da minha infância é a artista Joana de Carvalho e Silva e ambas são criadoras e criação. Pinta obsessivamente sobre papel e tela e as suas obras de arte são quem ela é e ela é as suas obras de arte.

Rendo-me à forma como percorrer a sua pintura me inquieta e assegura, desconhecendo em qual das personagens me revejo. A criança que espreita pelo topo do cenário, qual Gulliver na margem da ilha de Blefuscu, algures no Oceano Índico? Ou um dos liliputeanos, no alto dos seus quinze centímetros? São eles os pequenos ou ele o gigante? Serei eu ele e eles, em simultâneo? Altiva, em ponta de pés, na graciosidade própria dos dias bons, alterno entre o rubor da figura feminina para a tez cinza das figuras menores, características da melancolia dos dias menos bons. Não as vejo como diminuídas, apesar de dispersas, em tons de inverno. A direção dos olhares cruza-se, mas estes não: são linhas infinitamente paralelas entre si. Neste jogo de escalas criado pela artista, sou uma e outra personagem enquanto me deixo iluminar pela sublimidade de todas.

A equipa da shairart sente o privilégio de conviver com a sua pintura diariamente e de a poder partilhar. Helena Mendes Pereira, Chief Curator, descobriu Joana de Carvalho e Silva em duas obras de arte que se encontravam na galeria shairart dst. Um ano depois, a exposição individual da artista natural de Braga, ESCRUTÍNIO DO (IN)VISÍVEL – PINTURA E SIMULACRO, pode ser visitada até ao último sábado deste mês. O seu portefólio online encontra-se disponível aqui.

 

 

 

 

 

 

Por Catarina Martins

Head of Communication da shairart 

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