Ser colecionador

Passamos pelas coisas sem as habitar, falamos com os outros sem os ouvir, juntamos informação que nunca chegamos a aprofundar. Tudo transita num galope ruidoso, veemente e efémero. Na verdade, a velocidade com que vivemos impede-nos de viver. Uma alternativa será resgatar a nossa relação com o tempo.

 José Tolentino Mendonça in O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas (Quetzal Editores, 2017)

 

A arte devolve-nos a nós mesmos: cria inquietações, revela respostas e eleva o quotidiano. Esconde um contador de histórias infinitas que dão sentido à nossa própria cronologia. O rodopio diário pelo qual apenas passamos e onde raramente permanecemos preenche-se de matéria finita, descartável, efémera, que acumulamos sucessivamente esperando que complete os nossos espaços físicos e interiores. A obra de arte, objeto único que expõe a intimidade do autor e espelha a do colecionador, relembra-nos que o essencial é o que queremos deixar de nós. As possibilidades de uma coleção de arte são amplificadas com o tempo: peças estimadas e reservadas em espaço individual passam de geração em geração, transmitindo as memórias, os valores e os desejos que guiaram a anterior.

A integração da obra de arte em espaço de galeria compele-nos a parar e a imaginar, humildemente, quantas narrativas, para além das nossas, revestem os lugares e personagens retratados. Recorremos ao nosso tempo livre, que asseguramos ser cada vez mais escasso, e contemplamos imagens de outros que nos conduzem ao encontro do nosso próprio referencial. Somos levados até práticas do dia-a-dia que não as nossas, mas que nos remetem para a experiência individual. Ao fugaz instante registado em pintura, fotografia, escultura, desenho ou ilustração contrapõe-se o tempo necessário para o ver – distinto da velocidade com que percorremos os locais e da banalidade com que os inserimos nas nossas rotinas.

Enquanto nos preparamos para festejar o quarto aniversário da shairart, repetimos o slogan como se de um mantra se tratasse: BE A COLLECTOR – a importância de ser (e não apenas de ter) e a possibilidade de todos podermos colecionar arte. A história que contaremos aqui começa a norte do país, com origem na inovação do grupo dst, de Braga, e é escrita por todos os artistas que representamos, pelas galerias às quais estamos ligadas, pelos colecionadores de arte contemporânea que aconselhamos e pelos diferentes espaços que nos acolhem.

Pétalas. À espera de um milagre., 2017, de Elizabeth Leite

Comecemos pelo capítulo: UM METRO OU UMA QUESTÃO DE PONTO DE VISTA, da autoria de Elizabeth Leite. A mostra de desenho e pintura organizada pela shairart pode ser visitada a partir deste sábado, 24 de março, no Hotel Meira, em Vila Praia de Âncora.

 

Por Catarina Martins
Head of Communication da shairart 

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