Rússia, um país de superlativos

A Rússia é um país de extremos onde a beleza e grandiosidade dos monumentos se mistura com os blocos de cimento, frios e ameaçadores, que ensombram as cidades. As suas duas “capitais” são exemplo disso mesmo. Moscovo é uma cidade dura, onde não ouvimos gargalhadas, nem se vê sorrisos nas caras dos seus habitantes. S. Petersburgo é uma cidade imperial, luminosa, cheia de tesouros que permanecem até hoje dos gloriosos tempos dos czares.

É precisamente por Moscovo que esta viagem começa. A cidade reúne uma série de atributos que fazem dela uma das mais dramáticas do mundo. É a maior localizada a norte do planeta terra, a segunda mais populosa da Europa, atrás de Istambul, e a sexta mais populosa do mundo, com mais de 12 milhões de habitantes. De acordo com a revista Forbes, tem ainda uma das maiores comunidades de milionários do mundo. Moscovo não é uma cidade turística e não sabe como sê-lo. Não existem placas em nenhuma outra língua (ou alfabeto) que não o russo e, na sua maioria, as pessoas não falam mais nada que não seja o russo. Talvez por isso o desafio de a conquistar seja o que mais nos atrai.

Cidade de contrastes, esmagada entre as marcas ainda muito presentes do período comunista e com os mais evidentes sinais de modernidade resultantes do “capitalismo”, cujo melhor exemplo é a própria Praça Vermelha. No coração de Moscovo, na praça das grandes paradas militares comunistas, coabitam símbolos do regime vermelho, nos imponentes muros do Kremlin, com aquele que é um dos maiores e mais luxuosos centros comerciais da cidade e talvez do mundo.

Ainda na Praça Vermelha, deixamo-nos deslumbrar pela Catedral de S. Basílio, edifício de cores vivas e brilhantes de onde quase não conseguimos desviar os olhos. Este é, sem dúvida, um dos mais grandiosos monumentos alguma vez construídos. No seu interior, destacam-se as paredes totalmente decoradas com frescos vibrantes e os iconóstases (telas decoradas com ícones religiosos que decoram a grande maioria das igrejas ortodoxas), nove no total, onde podem ser admirados mais de 400 ícones religiosos. A catedral quase sucumbiu por duas vezes à destruição. Primeiro por Napoleão, quando em 1812 conquistou Moscovo (felizmente a pólvora acabou ensopada) e depois por Estaline, que procurou abrir espaço na Praça Vermelha para as suas paradas militares.

Explorar a Praça Vermelha é um sem fim de emoções. No lado oposto à catedral encontramos mais três obras-primas da arquitetura, a Catedral do Kazan, o Museu Histórico do Estado, famoso pelos seus tijolos de cor vermelha, e ao centro o GUM, o gigante Centro Comercial do século XIX, um dos maiores da Europa. No centro da Praça, em lugar de destaque, encontra-se o Mausoléu de Lenine, guardado pelos imponentes muros do Kremlin.

Se a Praça Vermelha e tudo isto, o Kremlin não fica atrás. Este é um dos mais importantes monumentos de Moscovo, albergando alguns tesouros arquitetónicos únicos, entre eles as Catedrais da Assunção, do Arcanjo e da Anunciação, o Arsenal, o Grande Palácio, a Torre do Sino de Ivan o Grande e a Igreja da Deposição das Vestes. Destaque ainda para o canhão, com mais de 40 toneladas, e o sino do Czar, o maior sino do mundo com 220 toneladas.

Nenhuma visita a Moscovo está completa sem uma ida ao Bolshoi, um dos mais importantes teatros do mundo, por onde já passaram as maiores obras de ópera e ballet. Inaugurado em 1780 foi destruído duas vezes pelo fogo, uma das quais durante as invasões napoleónicas. A sua fachada é marcada pela estátua de Bronze de Apolo na Carruagem do Sol e pelo pórtico com oito colunas maciças.

Muito mais existe para ver e descobrir, mas termino com um dos pontos altos, escondido muitos metros abaixo da cidade, as estações de Metro. Obras-primas do regime comunista e memórias vivas de uma época que marcou a história russa. As primeiras estações foram inauguradas em 1935, construídas por trabalhadores e voluntários patrióticos, que escavaram arduamente os túneis, usando apenas pás e picaretas. Das mais imponentes destacam-se a Kropotkinskaya, Kievskaya, Arbatskaya, Teatralnaya, Ploshad Revolyutsii e, talvez a mais imponente, Komsomolskaya.

Seguindo viagem para São Petersburgo, a segunda maior cidade da Rússia, localizada ao longo do rio Neva. A milhares de km de Itália reflete muita da sua influência, artística e arquitetónica. Reconhecida como “Veneza do norte”, com os seus canais e edifícios de estilo renascentista, muitos deles desenhados por mãos italianas. O seu centro histórico e monumentos são Património Mundial da UNESCO, onde convivem, de forma harmoniosa, diferentes estilos e épocas, desde o romantismo do renascimento à dureza do estilo soviético.

A principal obra prima de São Petersburgo é o Hermitage, um dos maiores, mais importantes e excecionais museus de arte do mundo. O museu inclui diversos edifícios, entre eles o Palácio de Inverno, o Novo e o Velho Hermitage e o Edifício do Estado-maior. Aqui é possível visitar exposições dedicadas à Pré-história, Antiguidades Gregas e Romanas e uma das mais vastas coleções de arte do mundo com obras de Matisse, Picasso, Gaugin, da Vinci, Rembrandt, Miguel Ângelo, entre outros. O Palácio de Inverno é um edifício de uma beleza imortal que desvia muita da atenção que devíamos dedicar às obras de arte. As cores das salas e halls, a riqueza das decorações, os dourados nas paredes, tetos e móveis, a beleza dos mármores, tudo no seu interior foi concebido para fazer dele um dos mais impressionantes monumentos da humanidade.

Se o Hermitage é a estrela da cidade, o seu coração é a Avenida Nevskiy Prospekt, onde é possível encontrar um pouco de tudo: igrejas, palácios, os mais impressionantes cafés, lojas e Centros Comerciais. Desta movimentada avenida avistamos ainda a Igreja do Sangue Derramado, uma igreja ortodoxa, cheia de cores, cúpulas e fortes elementos gráficos. As paredes estão cobertas de mosaicos coloridos (mais de 7.000 m2), criando inacreditáveis obras de arte que representam diversas figuras de santos. Rivalizando com a sua beleza, encontramos ao lado a imponente Catedral de S. Isaac, pesando umas respeitosas 300.000 toneladas, é a maior da Rússia. O seu interior é de uma beleza sem comparação, com 14 diferentes variedades de mármores coloridos, 40 variedades de pedras semipreciosas, frescos nos tetos e cúpula que ocupam uma área de mais de 800 m2, portas de bronze decoradas com cenas bíblicas e um iconóstase dourado. É possível subir à sua cúpula (211 degraus) para admirar a magnífica vista da cidade e apreciar, mais de perto, as estátuas dos Anjos que vigiam os quatros cantos da Catedral.

Do outro lado da cidade, encontramos a Fortaleza de S. Pedro e S. Paulo, datada do início da fundação de S. Petersburgo (1703). A fortaleza destaca-se no horizonte pelo enorme espigão da Catedral de S. Pedro e S. Paulo que se ergue em direção ao céu. A catedral é um dos motivos de visita à fortaleza, um espaço agradável para um passeio e onde, no verão, nasce uma pequena praia, nas margens do rio Neva.

Por debaixo da cidade, e à semelhança de Moscovo, espalham-se, em diferentes direções, as mais bonitas estações de metro do mundo, construídas durante o período soviético. Os “Palácios do povo”, como eram conhecidas, incluem candelabros ornamentados, colunas em mármore, figuras esculpidas, simbologia e cenas representando imagens do regime. A linha vermelha é a que mais estações reúne que merecem uma visita, onde se destacam a Avtovo, Ploshchad Vosstaniya, Kirovsky Zavod, Baltiskaya e Narvskaya.

Nenhuma visita ficaria completa sem uma passagem pelo Teatro Mariinsky, que à semelhança do Bolshoi, é uma das mais importantes salas de ópera e ballet da Rússia. Quando foi inaugurado em 1860 tinha o maior palco do mundo. Os seus interiores são esplendorosos, com pinturas de inspiração renascentista. Existem representações quase diariamente e os bilhetes podem ser comprados online, com antecedência, pois esgotam numa questão de minutos.

Guia para Moscovo e S. Petersburgo

 Como ir e onde ficar: Existem voos diretos de Lisboa para Moscovo e a deslocação para S. Petersburgo pode ser feita de avião ou de comboio, partindo de Moscovo. Os hotéis em Moscovo são relativamente baratos, mas em S. Petersburgo já se notam os preços de uma cidade turística.

 

Vistos: O processo não é muito fácil, mas aqui ficam os passos necessários para pedir o visto.

  1. Passaporte válido com pelo menos 6 meses de validade e duas páginas não preenchidas com vistos, carimbos ou outras inscrições;
  2. Solicitar cartas convite aos hotéis onde vão ficar instalados (em russo);
  3. Seguro de viagem especial para a Rússia com montante mínimo de 30.000€/pessoa e que seja de emitido por uma companhia com acordo com parceiro russo (p. ex Mapfre);
  4. Preencher o formulário do site onde entre outras coisas é preciso colocar os dados referentes às cartas convite dos hotéis (foi aqui que descobri que o Google traduz razoavelmente de russo para português), informação do seguro, dados pessoais e profissionais;
  5. Entregar tudo na embaixada Russa ou no VHS Portugal – Centro de Vistos da Rússia com uma foto e pagar 55€;
  6. Cerca de 10 dias depois encontram o visto dentro do passaporte e estão finalmente habilitados a visitar a Rússia.

Uma sugestão… peçam ajuda à vossa agência de viagens de confiança. Não só vos diz tudo o que precisam, como ajudam na emissão de toda a documentação.

Como se deslocar: A pé ou de metro. A pé sempre que possível porque há muito para descobrir pelas ruas: grandes palácios, igrejas e outros tesouros. No entanto, as cidades são enormes, pelo que podem e devem recorrer ao metro. O bilhete custa menos de 0,80€ em Moscovo e 0,40€ em S. Petersburgo. Em Moscovo as estações estão escritas apenas em cirílico o que torna a coisa mais difícil, mas com a ajuda de um mapa com as estações em cirílico e no alfabeto normal é possível circular sem grandes problemas. De carro é de evitar, a menos que gostem de emoções fortes. Os táxis não são caros, mas os russos conduzem como loucos…depressa demais e de forma irresponsável.

O que comer: borscht, sopa vermelha de couve e beterraba, servida com carne, batatas e smetana (natas); panquecas russas ou blini,  versão russa dos crepes franceses, salmão e arenque fumados, dumplings ou pelmeni, strogonoff e caviar

Entradas nos monumentos: o ideal é, sempre que possível, comprar online para evitar as filas, sobretudo para o Hermitage. De referir ainda que, dada a dimensão do museu, é importante planear antecipadamente o que ver. O museu tem duas apps que ajudam, uma das quais com um circuito de 1 hora. Os bilhetes para a Igreja do Sangue Derramado e Catedral de S. Isaac podem ser adquiridos à entrada, em diversas máquinas.

Outras notas: Não beber água da torneira. Optar sempre pela engarrafada. Sim, parece estranho, mas até nos hotéis nos dão essa indicação. Os canos da cidade são velhos, pelo que se recomenda apenas o consumo de água engarrafada.

 

Sónia Dias

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