Vítor Costa: “Número crescente de turistas na capital deve ser entendido como uma oportunidade”

Em entrevista ao Onde Ir, o presidente da Entidade Regional de Turismo da Região de Lisboa, Vítor Costa, mostra-se satisfeito com o aumento de turistas na região, mas adverte para alguns problemas que devem ser resolvidos urgentemente, como o novo Aeroporto no Montijo e ainda a funcionalidade e qualidade dos transportes públicos.

Por Sandra Martins Pereira

Algumas vozes se têm levantado contra o turismo em Lisboa, dizendo que a cidade está a ser “despejada” da sua população. Outros, porém, afirmam que tem sido feita uma revitalização da cidade, dando uso a edifícios que outrora estavam degradados. Qual a sua opinião sobre esta matéria?

Os benefícios do Turismo para Lisboa são amplamente conhecidos. Sabemos que é um setor que gera riqueza, impulsiona a criação de emprego, a reabilitação urbana e melhora a oferta cultural e a autoestima dos residentes. Globalmente o Turismo tem crescido a dois dígitos na Região de Lisboa nos últimos anos, o que motiva o crescimento do setor em Portugal e o desenvolvimento da nossa economia, contribuindo de forma determinante para a recuperação das finanças públicas e para a atração de investimento nacional e estrangeiro, seja ao nível da tecnologia, como da inovação e do imobiliário.

É ainda pela via do Turismo que se tem conseguido avançar com diversos projetos de reabilitação de infraestruturas emblemáticas da cidade, como é o caso do Pavilhão Carlos Lopes que tanto beneficiam quem nos visita como os habitantes locais.

Desta forma, o número crescente de turistas na capital deve ser entendido como uma oportunidade que permite a valorização da oferta a vários níveis.

Por estas razões, consideramos que a sustentabilidade é o nosso principal desafio, de forma a garantir o crescimento do Turismo e, simultaneamente, a melhoraria da qualidade de vida dos residentes.

Isso consegue-se se passarmos a um novo patamar em que o destino Lisboa passe para uma escala diferente, a escala metropolitana, garantindo-se melhores transportes públicos e melhores serviços urbanos. Simultaneamente, o Estado tem que encontrar respostas para os problemas de habitação e para a defesa das populações dos bairros históricos, problemas que já existiam e são endémicos, mas que o Turismo evidenciou.

Estes problemas não se resolvem retirando o Turismo da equação, mas sim criando políticas públicas adequadas, que os meios gerados pelo Turismo podem permitir desenvolver. Compare-se, por exemplo, o valor que os Municípios arrecadavam do IMT há 6 ou 7 anos e o que arrecadam hoje, principalmente por causa do desenvolvimento turístico.

Este ano, a Região de Lisboa vai receber 29 novas unidades hoteleiras, sendo que apenas quatro não estarão dentro da cidade. Há lugar para tantos hotéis?

Há um fator que devemos ter desde logo em conta, pois, atualmente, a incidência turística continua a ser distribuída, sobretudo, por quatro freguesias de Lisboa, por Cascais e Sintra. Seria importante que os investidores tivessem a perceção clara que existem oportunidades noutras zonas da Região, fora destes territórios, onde podem ser criadas novas ofertas com a mesma qualidade e mais competitivas, acrescentando conteúdos à Marca Lisboa.

Creio que este processo vai acelerar, mas gostaria de advertir que, tal como aconteceu noutras cidades estrangeiras, a utilização turística de outras parcelas do território na Região não irá implicar a diminuição da utilização das atuais, pois não é possível deslocalizar os turistas dos locais que querem visitar. Assim sendo, é preciso garantir que a gestão do crescimento seja adequada e que, em consequência, o desenvolvimento seja sustentado.

Lisboa tem recebido nos últimos anos alguns eventos que arrastam consigo várias pessoas, como por exemplo o Web Summit e agora o Festival Eurovisão da Canção. Em termos de acessibilidades conseguimos dar resposta a estas “enchentes”?

Estes eventos têm sido realizados com grande sucesso, e têm-se repetido, o que prova a nossa capacidade para os receber.

Mas existem, de facto, vários desafios a ter em conta, sobretudo quando consideramos eventos de grande dimensão que trazem grande número de visitantes. Como é sabido a atual oferta aeroportuária atingiu o seu limite pelo que é urgente avançar rapidamente para o aeroporto complementar no Montijo, para acomodar toda a procura, mas também novas rotas. Esta infraestrutura é também o elemento estruturante mais importante para podermos atingir o novo patamar – metropolitano – de que falei em termos de destino turístico.

Sendo essencial tomar decisões sobre esta matéria que, aliás, já deviam ter sido tomadas pelo Governo, será também indispensável encontrar soluções intercalares para se poder continuar o crescimento. E é necessário que o atual aeroporto funcione bem, sem constrangimentos como os que se têm por vezes verificado no âmbito do SEF, que não são adequados a um destino de qualidade.

Quanto à mobilidade interna é absolutamente crítico que se melhore drasticamente a funcionalidade e qualidade dos transportes públicos como o Metro, a Carris, a componente ferroviária e os transportes na Península de Setúbal. Dentro do sistema de transportes internos assume particular relevância o transporte público fluvial, como elemento estruturante que pode assegura a “cidade das duas margens”. A melhoria dos transportes é essencial para os turistas, que nos visitam por alguns dias, mas é sobretudo importante para os residentes, que os usam diariamente. Destacaria ainda outras questões em termos de mobilidade que nos parecem fundamentais, como é o caso da articulação entre todos os meios e o preço. Há cidades que chegaram à conclusão que é globalmente mais vantajoso que os transportes sejam gratuitos para os residentes. Neste quadro, são muito positivas algumas medidas já tomadas ou em preparação como a passagem da Carris para a CML e a sua nova estratégia, a melhoria do Metro, os investimentos na Transtejo e o novo papel assumido pela Área Metropolitana de Lisboa na coordenação do sistema.

Recentemente foram criadas algumas valências na cidade, como o caso da Experiência do Pilar 7 da Ponte 25 de Abril ou ainda a possibilidade de fazer o percurso turístico em autocarro Hop On Hop Off, da Cityrama, que integra o Circuito Turístico Belém Monumental. Como estão a decorrer até ao momento? Tem registo de quantas pessoas já utilizaram estes serviços?

Os dados globais que dispomos são relativos à Experiência do Pilar 7 da Ponte 25 de abril. Desde a abertura ao público, a 28 de setembro de 2017, até ao final do mês de abril, já recebeu mais de 55 mil visitantes.

Estão pensadas outras valências para os próximos tempos?

De momento estão duas obras em curso, que são nomeadamente as obras de valorização do Palácio Nacional da Ajuda, para acolher a Exposição Permanente do Tesouro Real, e o Museu Judaico de Lisboa, em Alfama. São ambas intervenções que visam a revitalização urbana e vão contribuir para a dinamização da oferta cultural e turística da região. Em breve teremos concluídos os projetos de reabilitação da antiga Estação Sul Sueste, de Cottinelli Telmo, e a sua adaptação para Terminal da atividade marítimo-turística e lançaremos o concurso para a obra.

Falemos do Aeroporto de Lisboa que está já congestionado. A falta de uma solução rápida pode prejudicar o turismo em Lisboa?

De facto, este é um tema que exige uma solução urgente em prol do Turismo. Como mencionei antes, o atual aeroporto atingiu números de passageiros que antes nunca foram esperados, e está à beira do esgotamento. Tem sido referido publicamente a dificuldade de acomodar a procura e, até, a rejeição de novas rotas. Atualmente não há mais nenhuma alternativa a não ser resolver o que há a resolver e avançar rapidamente para o aeroporto complementar no Montijo.  Enquanto isso não acontece, devem ser tomadas medidas transitórias, de forma a podermos continuar a funcionar até à entrada em operação da nova infraestrutura, prevista para daqui a 3 ou 4 anos. Isto é, de facto, decisivo para o Turismo, mas também para a TAP e para a sua operação de hub.

Na sua opinião, a solução apontada pela ANA e o Governo será a suficiente?

A solução do segundo aeroporto de Lisboa na atual base aérea do Montijo não só resolve os constrangimentos, como será um fator chave na estratégia regional. O atual déficit aeroportuário tem que ser resolvido no mais curto espaço de tempo, porque estamos no limite. Trata-se não só de responder às necessidades do Turismo, mas também de outras questões importantes como a operação hub da TAP, que extravasa o âmbito do Turismo.

Este é um site que sugere locais onde ir. Há alguns locais, com história que os próprios lisboetas desconheçam e que devam ir?

Lisboa tem tanto para descobrir que o desafio é que seja vista como um destino maior. Uma cidade com duas margens, em que o Tejo é um fator de união. A região de Lisboa é vasta, já com áreas turísticas bem consolidadas ou em franco desenvolvimento, com uma multiplicidade de propostas e experiências muito atrativas, a poucos minutos do centro da cidade e frequentemente ainda desconhecidas pelos residentes, desde o turismo náutico e de natureza, passando pelo surf, mergulho, gastronomia e enoturismo.

São 18 os municípios da região com características tão diferentes entre si, mas ao mesmo tempo complementares, pelo que existe uma proposta turístico única a revelar ao mundo.

Falemos de números. Quantos turistas recebeu Lisboa este ano até ao momento? E quando comparado com o mesmo período do ano passado está abaixo ou acima?

Os números mais recentes deixam-nos bastante satisfeitos. Em 2017, Lisboa passou a ser a região nacional líder em termos de proveitos globais do alojamento turístico, que aumentaram 21,6% para 1.065,6 milhões de euros, de acordo com os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Lisboa mantém-se, ainda, como a região nacional que recebeu mais hóspedes, nacionais e estrangeiros. O Revpar (receita por quarto disponível) cresceu 20,6%, para 72,6 euros, muito superior à média nacional situada nos 50,2 euros. Já a taxa de ocupação por quarto na Região de Lisboa foi de 76,5%, também superior à média nacional de 66,7%. A Região de Lisboa registou 14.324 mil dormidas em 2017 (mais 8,7% que em 2016) e 6.177 mil hóspedes (mais 9,4% que 2016).

A abertura do novo terminal de cruzeiros em Lisboa traz a possibilidade de recebermos muito mais turistas bem no centro. Têm notado um acréscimo de cruzeiristas na capital?

O produto “cruzeiros” é um nicho de mercado que tem interesse, em especial para certos segmentos da oferta turística e, como tal, tem sido objeto da nossa atenção, em conjunto com outras entidades, em especial com a Administração do Porto de Lisboa.

O atual número de passageiros de cruzeiros é de cerca de 500 mil, mas a nossa expectativa é que esse número possa aumentar e, sobretudo, que aumente o número de passageiros que começam ou acabam o cruzeiro em Lisboa porque esses deixam mais receitas em Lisboa.

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