A inevitabilidade de ser(mos) Cristina Troufa

Retrato de uma princesa desconhecida

 

Para que ela tivesse um pescoço tão fino

Para que seu pulso tivesse um quebrar de caule

Para que seus olhos fossem tão frontais e limpos

Para que sua espinha fosse tão direita

E ela usasse a cabeça tão erguida

Com uma tão simples claridade sobre a testa

Foram necessárias sucessivas gerações de escravos

De corpo dobrado e grossas mãos pacientes

Servindo sucessivas gerações de príncipes

Ainda um pouco toscos e grosseiros

Ávidos cruéis e fraudulentos

 

Foi um imenso desperdiçar de gente

Para que ela fosse aquela perfeição

Solitária exilada sem destino.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1972)

 

 

Quão alto levanta o queixo; como firmemente empunha a planta; por quanto tempo apoia a mão na anca: tudo a denuncia e tudo é autorretrato. Este é o diário desenhado e pintado de Cristina Troufa, que poderia ser o diário escrito de Sophia de Mello Breyner: opostos da princesa desconhecida. As duas autoras presentes na zet gallery durante dois meses, no ano do centenário do nascimento da escritora, comemoram a inevitabilidade de sermos nós próprios.

Não somos um e não estamos estagnados. À semelhança da artista, somos múltiplos e os feitos dos dias revelam-no sempre que o penteado despenteia, as expressões enrugam, as mãos envelhecem, o olhar desconfia. A beleza do corpo de trabalho está no círculo perfeito criado pelas cerca de setenta obras de arte: a resposta encontra-se em nós. Tudo é autorretrato, mesmo quando não partimos da nossa própria figura, como a artista. E a possibilidade de nos relacionarmos com o mesmo reside, unicamente, na capacidade de nos identificarmos com a histórias aqui contadas.

Para que Cristina chegasse até nós, público, foram necessários passado e presente – da pintura da mãe à contínua autodescoberta da artista. Mas nós, público, não somos apenas o outro: estamos em todas as Cristinas desenhadas e pintadas, retrato perfeito da imperfeição. Não estamos condenados a sermos nós próprios: é algo inevitável e a única forma de sermos verdadeiramente livres.

Até ao dia 4 de maio de 2019, sábado, a zet gallery é inundada pela cor e luz de Cristina Troufa. A exposição individual UTOPIA inaugura este sábado, dia 9 de março, a partir das 16h00. O evento conta com a habitual visita pela exposição, guiada pela curadora da galeria Helena Mendes Pereira; com a atuação musical de Ana Silva e Paulo Rodrigues e, ainda, com o DJ set de Sara Pereira.

 

 

 

 

 

 

Por Catarina Martins

Head of communication da zet gallery 

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