Ainda temos muito por onde ir

Há machismo em muitas das expressões que, sem pensar duas vezes, usamos todos os dias. Expressões que, na maior das inocências, muitas mulheres replicam. É algo tão estrutural, tão secular, que já (quase) ninguém questiona.

“Ele ajuda-me na cozinha”, “faz-te um homem” ou “chefe de família” são três das expressões que me surgem neste momento. Ouvia-as vezes sem conta, nos mais variados contextos, em lábios de mulheres. Como se o homem que escolheram para viver não tivesse a obrigação de partilhar as tarefas, como se a dureza masculina fosse um atributo a valorizar, como se a eles coubesse o papel de liderar.

Não raras vezes parei para pensar sobre a diferença de poder logo no par de palavras “marido-mulher”. Até nestas coisas a língua pode ser mais reveladora do que se pensa. Ele, por se casar, ganhou uma outra expressão para o descrever. Ela, com o mesmo ato, manteve uma condição que era sua desde nascença. Só que agora, é “a mulher de” alguém. Como se de uma propriedade se tratasse.

Ainda nesta tarde, uma conhecida minha se questionava: “se há um dia da mulher, porque não há um dia do homem?”. Não que ela desconhecesse as lutas feministas ou o famoso incêndio em Nova Iorque que serviram de pretextos para que 8 de Março seja o Dia Internacional da Mulher. A pergunta revelava algo mais profundo, reflexo de um pensamento dominante tão embrenhado nela. E uma outra pergunta faz-se de imediato: se as mulheres não reconhecem a importância de um dia como este, então quem irá reconhecer? Os homens? As outras minorias?

É desolador ver uma mulher atacar outra quando até partilham a mesma raiz biológica mas não tiveram o mesmo campo de oportunidades a nível social. É desolador ver uma mulher atacar outra porque se “pôs a jeito” para ser assediada, porque é gorda ou a maquilhagem está carregada, porque a outra decidiu viver sozinha ou não quer ser mãe, porque saiu do trabalho mais cedo para ir buscar os filhos à escola, porque ama outra mulher ou, pura e simplesmente, porque ela luta por direitos tão básicos que ainda não estão assegurados. É desolador, sobretudo, porque essa crítica de camarote só é possível tendo em conta que, no passado, outras mulheres tiveram a coragem daquela que hoje é criticada.

Falta-nos muito para chegar a um nível que possamos chamar satisfatório. Há diferenças nos salários. Há diferenças nas obrigações sociais. Há diferenças no conforto que se sente ao andar sozinho na rua. Há diferenças de mentalidade que parecem insanáveis. E há, sobretudo, números que nos deviam preocupar. Não apenas às mulheres, mas a todos.

Desde o início do ano, só em Portugal – “somos um país tão pacífico”, dizem – já morreram 11 mulheres vítimas de violência doméstica – e receio que este número possa ser atualizado brevemente. Ouve-se, quase sempre, que morreram porque o companheiro tinha um ciúme muito forte delas. Um ciúme doentio, capaz de matar. Como se elas fossem as causadoras desse ciúme e, por isso mesmo, as causadoras da sua própria morte.

Não! Morreram porque tiveram medo, porque não pediram ajuda, porque receavam que essa ajuda pudesse apenas piorar a situação. Morreram porque fomos todos demasiado fracos para escutar esse grito por auxílio. Morreram porque olharam para si mesmas como a parte fraca. Porque muitas das expressões que aprenderam, enquanto se tornavam mulheres, sempre as descreveram como a parte fraca.

Até quando?

 

 

 

 

 

 

 

Por Wilson Ledo

Jornalista 

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