Carlos Augusto Motta: acrílico feito luz

It’s always night, or we wouldn’t need light.

Thelonious Monk

 

A rotina transforma-se em noite quando se torna difícil ver para além dela. E quando a dormência do dia-a-dia nos domina – toldo que esconde a curiosidade e dissimula a novidade – urge encontrar pontos de luz, que podem ter variadas formas. O (meu) mais recente tem a forma de um artista recém-chegado: do Brasil para a zet gallery, para Braga, para Portugal. Carlos Augusto Motta é, ele próprio, luz. Todos os seus trabalhos refletem-na. A postura imponente e leve, em simultâneo, coincide com o timbre da voz: majestoso e contagiante. Não há espaço em branco entre quem ele é e o que cria. Há uma transferência direta, através do acrílico, técnica que domina. Corpo, braço e mão canalizam para a tela uma vida de arrebatadoras experiências pessoais e profissionais.

Uma das primeiras histórias que contou foi a da obra de arte: Blood, que lhe chegou através do núcleo familiar. Surge de forma inconsciente, em fase de confronto com a perda humana e com o processo orgânico que conduziu ao fim de uma vida próxima. Nas várias possíveis interpretações, um cruzamento de possibilidades: se a dimensão da obra de arte, que atinge os dois metros, afugenta ou ampara; se da escuridão desabrocha a luz ou se é a própria luminosidade que flui da superfície e encobre o centro escuro; se, de facto, a noite é algo constante que requer iluminação ou se é a luz que existe em permanência e que, ocasionalmente, é turvada.

O artista revela que o seu trabalho se alimenta “(…) bastante da natureza, nomeadamente dos seus processos biológicos de seres vivos como fungos e bactérias, onde prevalece o interesse pelas suas formas e cores.” Da aparente objetividade da inspiração, quase científica, há uma linha em comum em todas as suas peças. De tão delicada que é poderá ser translúcida e invisível a um olho menos atento. Esse cordel imaginário trespassa a frontalidade cromática e a fluidez das formas e une o artista à sua obra, a vida à criação, a luz e a sombra.

Uma seleção de obras de arte de Carlos Augusto Motta pode ser visitada no Espaço Lounge da UMinho Exec, na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho (Campus de Gualtar, Braga). Nas palavras da curadora, Helena Mendes Pereira, chief curator da zet gallery, a mostra NATURA CORPURUM é “um processo reflexivo que encontra nos troncos das árvores as variações cromáticas e texturais do céu e do mar, do cosmos e da imaginação.” Para além destas peças, o restante portefólio do autor pode ser consultado na nossa plataforma online.

 

 

 

 

 

 

Por Catarina Martins

Head of communication da zet gallery 

One thought on “Carlos Augusto Motta: acrílico feito luz

  • 27 de Março de 2019 at 12:44
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    Conheço as obras de Carlos Motta. São incríveis! Você Cararina, expressou muito bem a essência da arte do Carlos com suas sensíveis e profundas palavras. parabéns! Claudia Terra

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