Clara Não: “Andamos a replicar comportamentos machistas sem darmos conta”

Clara Não é alegre e bem-disposta. A artista plástica do Porto tem a ilustração como uma plataforma de luta pelos direitos das mulheres e pela igualdade. Há poucos dias lançou um livro: “Miga, esquece lá isso – como transformar problemas em risadas de amor-próprio”, onde o quotidiano lhe serve de inspiração para muitas das histórias. Ao Onde Ir, a ilustradora conta que nomes a inspiram e dá até umas dicas de viagem.

Por Wilson Ledo

Que coisas é que fazem a Clara Não dizer que “Sim”?

Feminismo, amor-próprio, direito ao sentimento, determinação, dedicação, liberdade, respeito e gomas.

Este novo livro é sobre problemas do quotidiano. Acredito que não foi difícil arranjar inspirações. Andamos a abusar do “complicómetro”?

 (c) pedro_mkk

Sim, sem dúvida. A maior parte dos problemas complicados de resolver são fáceis de perceber. Se pegarmos num problema grande e o dividirmos em pequenos, é mais fácil ultrapassá-lo, e vemos as etapas a serem conquistadas, o que nos dá mais entusiasmo para continuar. No entanto, mais preocupante do que ligar o “complicómetro” é ignorar os problemas. Por essa razão, torna-se muito importante trazer assuntos à discussão de forma honesta e sem preconceito.

Uma das tuas lutas é pela igualdade de género, até porque a desigualdade se verifica nas coisas mais banais. O teu trabalho é também uma forma de mostrar às mulheres que elas estão a replicar comportamentos sem refletir na lógica machista que existe por detrás de cada um deles?

Sim, é uma questão social urgente. Andamos todos a replicar comportamentos machistas sem darmos conta, mas preocupa-me muito mais quando são as mulheres a serem machistas, porque estão a lutar contra elas próprias. A desigualdade não é apenas superficial, está enraizada. Devemos tratar as pessoas como pessoas, e não como géneros. Com o meu trabalho tento fazer com que as pessoas reflitam nestas questões e estejam mais atentas ao seu dia a dia. Por exemplo, não confiem à partida mais num profissional só porque é homem. Não achem automaticamente que o enfermeiro vai ser mulher e o médico vai ser homem. Ao chegar a algum lado, não partam do princípio que uma mulher é assistente e o chefe é homem. E tantas outras “pequenas coisas” que fazem toda a diferença.

Este é daqueles livros para ler sem ser do princípio ao fim? Dirias que, mesmo abrindo numa página aleatória, o ensinamento se aplica sempre ao anseio de quem o abre?

É possível ler do princípio ao fim ou de forma aleatória — o livro foi pensado das duas formas. A sequência das ilustrações cria uma narrativa dentro do contexto de cada capítulo, e entre capítulos. A própria sucessão destes segue uma linha de pensamento. Mesmo assim, é possível abrir numa página aleatória e perceber o contexto e a mensagem, ou ensinamento.

A ilustração é uma forma rápida e eficaz de passar uma mensagem?

A ilustração concentra em si muita informação. O desafio é trabalhá-la com cuidado e de forma bem pensada para, então, passar a mensagem de forma eficaz. É um processo trabalhoso que envolve muita dedicação, para se poder tornar uma forma rápida de passar uma mensagem.

Que outros artistas te inspiram? Quais aqueles que dirias que os nossos leitores não podem mesmo deixar de conhecer?

Há muitos artistas que me inspiram, com diferentes abordagens, dos quais realço: David Shrigley; Mariana, a miserável; Natalya Lobanova; Heta Bilaletdin; Joana Estrela; André da Loba; Júlio Dolbeth; Rui Vitorino dos Santos; Cara Trancada; Dylan Silva; Mariana Malhão; Teresa Arega. Além de artistas plásticos/ilustradores, junto à receita referências literárias, como Chimamanda Ngozi Adichie,Simone de Beauvoir, Manuel António Pina, Adília Lopes, Valter Hugo Mãe, Gonçalo M. Tavares, e “As Três Marias” — Maria Velho da Costa, Maria Teresa da Horta e Maria Isabel Barreno. Aconselho a viajarem um pouco por estes nomes.

Somos o Onde Ir e, como tal, não podíamos perder uma dica de viagem. Qual o destino que mais gostaste e qual o que tens mesmo aí a liderar a lista?

O destino que mais gostei foi a Holanda. Recomendo três cidades: Roterdão, Amesterdão e Delft. Os meus próximos destinos são Londres e Dublin, neste verão. E a minha próxima intenção é conhecer melhor o território nacional. Tenho vindo a visitar mais locais, e cada vez me sinto mais cativada.

 

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