Coreia do Norte

A vontade de conhecer a Coreia do Norte era muita e vinha sendo alimentada há anos. E sempre adiada pelas constantes ameaças de conflitos nucleares – que se formos bem a ver dificilmente acontecerão. Já para não falar em todas as incertezas que se reúnem em redor de um país que é considerado o mais fechado, o mais estranho, o mais silencioso, o mais secreto, o mais misterioso de todos os que fazem parte do mapa-mundo.

Mas finalmente reuni as migalhas de coragem que me faltavam e fiz-me ao caminho com a quase certeza de que seria uma das mais fabulosas experiências de viagem que um dia poderia vir a ter.

O comboio K27 inicia a sua marcha às 17h27. Saí de uma das estações de Pequim em direção a Dandong, última cidade antes de entrar na Coreia do Norte e onde terei que mudar de composição.

A passagem pelo controlo alfandegário, depois de atravessar o rio Yalu, que separa a China da Coreia do Norte, não é surpresa. Sabia que me iriam revistar as intimidades levadas na mala, que me iriam pedir tudo o que fossem camaras de fotografar, de filmar, iphones, ipods, goPro e livros (a Bíblia, o Corão, a Tora, literatura pornográfica e livros ou guias sobre a Coreia do Norte são completamente interditos). Que olhariam mil vezes o meu passaporte e perscrutariam a veracidade do meu visto.

Passada uma hora e meia de revistas a todo o comboio, cujos passageiros são sobretudo norte-coreanos e chineses, é-me permitido seguir viagem. A bordo somos sete estrangeiros que nos pomos à conversa sobre o assunto mais do que óbvio: porque é que estamos a viajar para a Coreia do Norte.

Os militares norte-coreanos têm uma postura bastante…militar, passe-se a redundância. De verde azeitona, com chapéus ameaçadores e as faces inexpressivas absortas numa infinidade de formulários que devem preencher. Estão ali a cumprir uma missão e a tentar apanhar alguém em falso. Se tal acontece não consigo imaginar os gabinetes frios e austeros. Muito menos as celas das prisões de província. Ou as agruras e tormentos dos campos de trabalhos forçados. Os olhares acusatórios e parados. Adiante!

O comboio entra em território norte-coreano. O dia está acinzentado, mais à frente uma chuva miudinha. Poças de água provocam reflexos perfeitos para as fotografias de instante e mais artísticas. Os arrozais, inúmeros e belos, estendem-se a perder de vista. Mais tarde ficaria a saber que cerca de 12 milhões de norte-coreanos se dedicam em exclusivo a um bocado de chão numa base de corporativismo. 80% do país é montanhoso, apenas 20% cultivável. Cerca de 2,5 milhões são militares, o país do mundo com mais soldados per capita, 10% da população.

Os carros praticamente não existem. Os poucos com que me irei deparar ao longo de uma semana pertencem ao diminuto corpo diplomático representado em Pyongyang, aos militares e governantes de topo. Não existem carros particulares. Não existe nada privado. É tudo estatal. É o socialismo elevado aos seus mais altos padrões e raízes, uma adaptação leninista e maoista aqui praticada por uma ideologia muito própria criada pelos líderes, a ideologia Juche.

E vou fotografando ao longo do percurso. Campos, casas, pessoas, carroças, bicicletas, poucas motorizadas, um ou outro autocarro que faz transporte público.

Todo eu sou sorrisos. Ainda pouco sei sobre o país, apesar de muito ter lido, ouvido e visto nos meses que antecederam a minha viagem. E nem tenho noção de que já cometi uma série de infrações. Fotográficas, entenda-se.

Vou entrando cada vez mais profundamente no país de todos os medos e diabolizações. A paisagem, ainda que repetitiva, não cansa. A terra tem cor de terra, os cheiros do campo cheiram a campo. São um convite à evasão dos sentidos e ao desprendimento das coisas materiais. Esta gente vive com muito pouco. Diria que pauperrimamente. A produção que existe a nível industrial é tímida, o país não possui qualquer fonte de riqueza que se destaque. Estou completamente envolvido numa regressão. Ou numa falha espaço temporal, é o que melhor me ocorre pensar.

Mesmo assim existem milhões que entram para financiar testes balísticos e nucleares, para pagar bem a engenheiros e cientistas, para construir obras megalómanas na capital do país, Pyongyang. De onde vem o dinheiro? Do vizinho a norte, a China, a quem interessa sobremaneira manter a Coreia do Norte enquanto tampão entre o seu território e o da Coreia do Sul.

Devagarmente o comboio entra na estação terminal. Estou em Pyongyang e o meu sonho prestes a materializar-se. A partir de agora tudo serão exclamações e interrogações. Um verdadeiro tesouro para os que, como eu, vivem no fio da curiosidade.

Miss Kim e Mr. Jung, a “delegação”, aguardam por nós na plataforma. Serão eles os nossos guias/polícia durante o tempo que iremos estar na Coreia do Norte. Serão feitos de sorrisos, de informações passadas de forma altamente profissional, de advertências quando algum de nós tenta fotografar o proibido. Serão bons companheiros e embaixadores do seu país, do seu regime, dos seus líderes, da sua religião. Momentos únicos e inesquecíveis!

Da minha incursão à Coreia do Norte farão parte lugares como a DMZ (Zona desmilitarizada que confina com a Coreia do Sul no famoso paralelo 38’). Assim como uma visita a Kaesong, antiga capital imperial da dinastia Goryeo, que do ponto de vista internacional é a única cidade “ocupada” pela Coreia do Norte.

No final da viagem terei ainda oportunidade de pernoitar em Dongrim para visitar as cascatas locais e passear-me pela cidade de Sinuiju, a última em território coreano. Daqui olha-se a China a poucas centenas de metros e por cima do rio.

A paisagem campestre da Coreia do Norte é linda. A orografia acidentada proporciona momentos de rara beleza. As planícies inundadas de arrozais surtem o mesmo efeito. Aqui e ali um militar escondido numa guarita no local mais insuspeito que possamos imaginar. Os checkpoints existem um pouco por todo o lado. É uma sociedade altamente vigiada, controlada, asfixiada, isolada. E cujo olhar reflete o medo. Sobretudo em relação aos estrangeiros. Senti-o na pele. E no olhar.

A capital Pyongyang é o parque de diversões do atual líder. Aqui existem carros, poucos. Mais transportes públicos, é certo. A vida de sinaleiro é uma verdadeira seca. Um tormento de gestos calados. O metropolitano é quase uma cópia do moscovita. Pictórica, escultórica, mosaicos lindíssimos, verdadeiras galerias de arte com entrada livre. A propaganda está por todo o lado, seja nas cidades, seja no campo. Assim como o atual líder e o seu pai, sempre juntos em qualquer sítio, por mais estranho que o possamos conceber. Sempre apontando o caminho a uma revolução em permanência de valores e atitudes. Uma revolução que, como constatamos, não irá a lado algum.

O Museu da Guerra, em Pyongyang, é um dos mais belos, bem conseguidos e impressionantes que já visitei. É brutal em todos os sentidos e ombreia facilmente com o que de melhor se faz mundo fora. O Complexo Científico e Tecnológico é dos mais impressionantes, luxuosos e completos que já visitei em qualquer parte do mundo. A capital em si mesma é um exercício de ostentação e perplexidade. É de um contraste aberrante e bizarro em relação ao resto do país.

A arte, sobretudo praticada pelas crianças e muito jovens, é um verdadeiro deslumbramento de vozes, de solistas, de instrumentistas, de contorcionistas, de coros, de mimos, de ginastas. É a propaganda desenvolvida através da excelência das gerações futuras.
Independentemente do regime cruel e totalitário, dos permanentes atentados à condição humana, das incongruências, das maquiavelices, de um mundo tão pleno de desequilíbrios, injustiças e maus-tratos, todos nós o sabemos, não é? Até porque todas estas características são transversais a tantos países deste nosso mundo de estupefações.  E fico sem saber qual dos dois é pior. Se este que vivemos cá fora [das fronteiras norte-coreanas], se aquele em que eles vivem lá dentro.

Uma viagem única, inesquecível e que acabei de repetir no passado mês de julho de 2019.

NOTAS IMPORTANTES OU SUGESTÕES:

A moeda comumente aceite na Coreia do Norte é o Euro, pois não existe acesso à moeda local.

É necessário visto mas é um processo tranquilo e igual a tantos outros para outros destinos.

O passaporte tem que ter a necessária validade de até 6 meses, no mínimo, após a data de término da viagem.

A única porta de entrada e saída na Coreia do Norte é a China, pelo que Pequim terá que ser obrigatoriamente, seja por comboio seja por avião.
Na Coreia do Norte estamos com mais 8 horas em relação a Portugal.

Não existe possibilidade de escolher hotéis ou restaurantes na Coreia do Norte. É o Estado que escolhe cirurgicamente todos os locais por onde os viajantes irão passar e sem espaço para improvisos ou grandes manobras. Nenhum viajante pode circular sozinho pelo país e normalmente o seu “raio de liberdade” é de 200 metros.

Existe uma lista de regras a ter em conta e que são facultadas pela Agência Abreu antes de a viagem se iniciar. Esta é uma viagem que só pode ser organizada por uma agência e faz parte do portefólio Viagens (im)prováveis da Agência Abreu.


*António Barroso Cruz é um viajante compulsivo, tendo visitado 90 países e mais de 700 cidades. É também escritor, com 29 livros publicados e autor e apresentador de programas para televisão, ator e figurante em televisão, óperas, teatro e novelas. Aos leitores do Onde Ir conta a sua experiência na Coreia do Norte.

 

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