Equador

Poderia vir aqui discorrer sobre o equador, com minúscula. O que faria toda a diferença, ou quase, para o Equador com maiúscula. Sobre a primeira já tinha tido o privilégio de estar aquando de uma viagem a São Tomé e Príncipe e a necessária, e quase obrigatória, travessia até ao ilhéu das Rolas com o único propósito de me colocar sobre a linha imaginária que divide o mundo em dois hemisférios, abrir as pernas e tirar a foto da praxe.

Dito e feito, lá apanhei um barquito de pescadores na praia Inhame e quinze minutos depois desembarcava no referido ilhéu tornado famoso por ser um dos destinos de férias mais procurados pelos tugas em território são-tomense. Uma verdadeira desilusão, já agora! Sobretudo quando tanto a ilha de São Tomé quanto a do Príncipe têm argumentos hoteleiros e paisagísticos que arrumam a um canto as Rolas. Ou a habitual ignorância de comprar só porque existe uma marca hoteleira que por lá campeia. Ideia errada e precipitação quase garantida.

O Equador que hoje me traz a esta página é o da maiúscula. Aquele com o qual vinha sonhando há anos, muitos anos, tendo sempre sentado no meu imaginário o arquipélago de Galápagos. Lugar de acesso dispendioso, pois é mais ou menos como atravessar meio mundo e mais um pouco.

No entanto já tinha alguns laços com o país. Algo ténues, mas mesmo assim existentes. Por via da querida amiga Eva Carrasco Dellinguer que sendo equatoriana e vivendo na Madeira acabaríamos por nos conhecer em contexto Rotário e alimentado conversas acerca do seu país. E das suas idas e vindas. E dos meus sonhos e vontades de ir. E passaram-se os anos. E fui! Recentemente. 

Marcava o calendário o dia 31 de maio e lá ia eu, madrugadoramente, de Lisboa a Madrid com a Ibéria, onde me esperava uma ligação tranquila de Madrid a Quito na mesma companhia. Que, já agora vem a talhe de foice, melhorou imenso o seu serviço em voos intercontinentais desde a última vez – é certo que já lá vão uns anos – em que tinha entrado numa das suas aeronaves.

Embrulhado num pequeno grupo de agentes de viagem lá fui de transporte provado para o hotel em Quito, cruzando-me com as primeiras incertezas da cidade capital de um país imensamente desconhecido. Aliás, nas muitas vezes em que falo de Equador, as pessoas atribuem o nome a uma linha, e não a um país… 

Amanhece neblinado, desagradável, e lá vamos pela orografia acidentada de Quito, num sobe e desce e curva algo enjoativo. Chuvisca e não apetece. Mas há que aproveitar pois não sei se algum dia voltarei por aqui. É o último país da América do Sul que me falta conhecer, excepção feita àqueles esquecidos Surinames e Guiana, que de todo não me interessam.

Pelo que tenho é que tirar o melhor partido de cada instante que vou estar aqui e que se lixe o clima cinzento. A capital do Equador não me convence. Confesso que esperava algo mais imponente e glorioso em termos de património. A História, é certo, está toda lá. Assim como a quantidade de igrejas que enxameiam a cidade.

Os sorrisos das gentes doces, simpáticas e curiosas no que toca às nossas pessoas, também estão lá todos. Os equatorianos, fiquei com essa certeza absoluta, são pessoas imensamente simpáticas, carinhosas, acolhedoras, simples e humildes. Ainda conseguem ser genuínas, muito por via do seu afastamento, e consequente esquecimento, geográfico. São pessoas sãs e que têm pela vida um respeito profundo e honesto. Uma dedicação e uma delicadeza que se lhes denota sem esforço.

Otavalo, a poucas horas de Quito, é passagem obrigatória para quem vai pelo Equador na demanda das suas tradições, da sua cultura, da sua génese. É o maior mercado a céu aberto que existe na América do Sul. Ali podemos encontrar desde o leitão prontinho a ser comido, a peças de artesanato, ou de arte mais modernista e fora da caixa, absolutamente maravilhosas e perfeitamente acessíveis. Depois é toda uma variedade de farinhas, de frutos, de vegetais orgânicos, de roupas e utensílios do dia-a-dia.

Ibarra, ou os seus arredores, seria a minha próxima paragem, com algumas paragens pelo meio para conhecer aldeias e vilas como Cayambe, Cotacachi ou Quiroga. O objetivo do dia era chegar a Magdalena e aí pernoitarmos numa comunidade local que, apoiada por empresas privadas, foram melhoradas para, numa abordagem turística, poderem receber o visitante vindo das mais longínquas latitudes.

As casas são extremamente acolhedoras, os quartos são simples, rústicos, giros e também acolhedores. As pessoas que nos recebem sorriem facilmente. E a comida que nos preparam é saudável, genuína e local. Uma aposta muito bem conseguida neste tipo de ambientes que nos permitem perceber um pouco melhor os usos e costumes locais. 

E depois toda aquela infinidade de vulcões que nos fazem embasbacar, delirar, exclamar, sorrir e não nos cansarmos de mais e mais e mais. [até deu para sentir um ligeiro tremor de terra na primeira noite…]

Passados dois dias sentia-me completamente rendido às belezas equatorianas, fossem elas humanas ou naturais. E, o terceiro dia, era o tal de voltar a Quito (e o tempo tinha melhorado) para, finalmente no quarto, apanhar o avião para a ilha de Beltra, em pleno arquipélago de Galápagos!

Aproximava-se o momento alto desta minha incursão por terras equatorianas. Iria finalmente tentar perceber todos os porquês relacionados com Charles Darwin.

Passadas duas horas de um voo calmo e pacífico, começo a sobrevoar algumas das ilhas e o avião lá se faz à pista por entre alguns abanões ventosos. Tinha acabado de aterrar no primeiro (e não sei se único) aeroporto ecológico do mundo!

A piada desta parte da viagem começa com a verificação da bagagem. Como se saberá é proibido transportar algumas matérias e alimentos para Galápagos. Ora as malas são todas tiradas do avião e colocadas numa sala espaçosa. E só quando todas elas lá estão, é que entram os cães polícia detectores de substâncias proibidas. É super divertido, pois guiados pelas mãos dos seus polícias. Os cães andam por cima de todas as malas, ora sobem, ora descem, ora farejam, ora saltam, ora latem. E depois de dez minutos de “brincadeira”, e sem nada ter sido detectado, podemos finalmente recolher as malas e ir à nossa vida.

Convirá também saber que Galápagos tem quota diária de entrada para viajantes. Neste momento encontra-se em cerca de 250 mil visitantes/ano. E, a bem de todo o fantástico e fabuloso ecossistema das ilhas, as autoridades não estão pelos ajustes em deixar entrar mais gente. Apesar de caro, o que é sempre relativo pois depende da carteira de cada um, cerca de 80% do turismo que entra nas Galápagos é norte-americano. 

Estou agora no navio de cruzeiro, o M/V Legend, que me irá levar a cinco ilhas em quatro dias. A cabine é excelente, varanda vista mar. O navio é pequeno, cerca de 100 passageiros. O staff é um misto de simpatia com bajulação a favor da gorjeta. A comida é óptima. Mas isto consigo ter em qualquer navio de cruzeiro e em qualquer ponto do mundo. O que não consigo é ter uma quase vintena de ilhas com a riqueza que existe por aqui.

É, acredito piamente, um dos lugares mais intocados do mundo. Um dos mais puros e ecosistemicamente perfeitos! Tudo funciona entre eles (os animais e as espécies) sem necessidade de intervenção humana. Aliás antes de visitarmos as ilhas somos devidamente instruídos quanto a comportamentos para com os animais e os habitats onde se encontram. 

Depois é darmos largas à nossa alegria, é soltarmos todos os sorrisos que temos em nós, é deliciarmo-nos com o que nos rodeia em perfeição. É até podermos deixar por lá uma lágrima de emoção. É demasiado belo e perfeito para ser quantificável, mesurável, explicável. Só mesmo lá indo é que se perceberá o que aqui não consigo deixar lavrado em palavras.

San Bartolomé, Seymour Norte, South Plaza, Cerro Brujo, Baltra, Santa Cruz, Floreana ou Isabela são nomes que trago agarrados ao não esquecimento.

 E que tal para finalizar em beleza esta viagem de debutante ao Equador? Já os meus companheiros de viagem tinham ido à sua vida no regresso a Quita, meto-me eu num carro alugado e lá vou país a baixo ao encontro da cidade mais bela do Equador: Cuenca, pois então!

Sete horas de viagem para sul por estradas e povoações de belezas consecutivas. Duas noites em Cuenca para me maravilhar com o património Unesco que aqui está bem guardado e conservado. Quatro horas para norte para pernoitar numa hacienda lindíssima nos arredores de Riobamba para dar descanso de qualidade ao corpo.

E, no dia seguinte, mais quatro horas para chegar ao aeroporto de Quito e deixar para trás um país que tanto se me deu a conhecer, que tanto me fez sonhar, que tanto me gratificou pelos momentos inesquecíveis que por lá vivenciei.

Sugestões

Onde dormir em Quito: Hotel Casa Gangotena, Hotel Patio Andaluz e NH Collection Quito Royal

Onde dormir em Otavango: Hotel Medina del Lago

Onde dormir em Cuenca: Mansion Alcazar e Hotel Boutique Santa Lucia

Onde dormir em Riobamba:Hacienda Abraspungo

Onde comer em Quito: URKO, Zazu, Miskay e La Purisima

Onde comer em Otavalo: Puerto Lago e El Crater (perto de La Mitad del Mundo)

Onde comer em Cuenca: La Esquina, Simón, Guajibamba e Zircus

Onde comer em Riobamba: Hacienda Abraspungo e El Chacarero

Diferença horária: menos 6 horas que em Portugal

Moeda: Dólar americano = 0,91€

Documentos: Passaporte com 6 meses validade após o término da viagem.
Não é necessário visto para cidadãos portugueses.

Como ir: Voos Ibéria ou Air Europa via Madrid 

Quando ir: Melhor altura do ano para viajar entre novembro e maio (temperatura moderada e não chuvoso)

*António Barroso Cruz é um viajante compulsivo, tendo visitado 90 países e mais de 700 cidades. É também escritor, com 29 livros publicados e autor e apresentador de programas para televisão, ator e figurante em televisão, óperas, teatro e novelas. Aos leitores do Onde Ir conta a sua experiência no Equador.

 

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