Geovani Martins: “A violência e seus acessórios são sintomas da cidade”

Geovani Martins nasceu em 1991 no Rio de Janeiro. No seu primeiro livro, “O Sol na Cabeça”, o autor conduz-nos pelo lado humano das favelas cariocas – o que lhe tem valido múltiplos destaques como o novo “fenómeno literário” do Brasil. Em outubro, vem pela primeira vez a Portugal, onde foi recentemente publicado pela editora Companhia das Letras. Ao Onde Ir confessa a paragem que quer mesmo descobrir em Lisboa.

Por Wilson Ledo

Estes contos falam-nos sobre a droga e o crime que caracterizam as favelas do Rio de Janeiro. Contudo, há sempre um outro lado das personagens. É uma forma de mostrar a humanidade que também reina nestes lugares? São lugares de contraste, onde crime e entreajuda vivem lado a lado?

Eu acredito que o crime, assim como as drogas, a violência, são coisas que estão no mundo inteiro, não apenas nas favelas. Gosto de afirmar isso, porque há, na minha cidade, uma narrativa que faz parecer que essas coisas nascem das favelas, o que não é verdade. A violência e seus acessórios são sintomas da cidade, e as favelas, acabam sofrendo mais com esses sintomas pelo facto do território ser historicamente marginalizado. Nos meus contos, busco trazer meus personagens no auge de suas humanidades, não por serem favelados, mas por serem humanos.

Muitas das suas histórias são protagonizadas por crianças. A infância é a idade onde essa mudança ainda é possível? Ou estas crianças das favelas estão ‘condenadas’ pela falta de oportunidades do sítio onde nasceram?

Eu acredito que sempre é possível. É sempre uma questão de oportunidade e perspetiva. Esse período da infância, me interessa por muitas razões. Uma delas, certamente, é por apresentar um ser em formação, o que dá peso a certas histórias.

O Geovani é um autor muito jovem e com uma grande capacidade crítica sobre a realidade que o rodeia. Está preocupado com o futuro, sobretudo tendo em conta um novo quadro geopolítico que se está a construir globalmente?

Naturalmente, estou bastante preocupado. 2019 tem sido um ano violentamente duro para os moradores de favela no Rio de Janeiro. Falo primeiro da minha cidade para depois expandir para o mundo. Esse momento de afirmação da extrema direita no mundo, com figuras notadamente fascistas exercendo cargos importantes, me preocupa bastante.

“O Sol na Cabeça” está a ser adaptado ao cinema. Está a acompanhar o projeto de perto? Como está a ser?

Estou acompanhando de perto, ajudando no roteiro e tudo mais. Acredito muito no projeto, no potencial desse filme de chegar ao grande público, conversar com o povo, assim como consegui fazer, guardadas as devidas proporções, com o livro.

Já conhece Portugal?

Ainda não conheço Portugal, vou agora em outubro pela primeira vez. O lugar que mais quero conhecer é a Casa Fernando Pessoa.

O nosso site é o “Onde Ir” e não perdemos a oportunidade de pedir dicas aos nossos entrevistados. Qual é o lugar que já visitou e que os nossos leitores não podem mesmo perder?

Recomendo a quem um dia vier ao Rio de Janeiro, subir o morro Dois Irmãos. É uma trilha fácil de encarar e com uma das melhores vistas da cidade.

 

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