Granada em ritmo próprio

A obra de Julio Coartázar “Nicaragua tan violentamente dulce” continua a ser para mim uma referência literária realista e que conta o que nas décadas de 70/80 se passava num dos mais sensíveis países centro-americanos e que reflete a simpatia que o escritor tinha para com o movimento sandinista. O título, porque basicamente é por ele que passa este introito, é a designação perfeita de algo a que, mesmo de longe, sempre fomos assistindo: Somoza, Ortega, Chamorro, “contras”, Manágua, foram referências com que cresci. Com que me familiarizei e, por serem tão cantantes e musicais, ao mesmo tempo que mortíferas e perigosas, sempre me despertaram a tal curiosidade de um dia ir pela Nicarágua.

Tudo isto passou e pertence atualmente a uma História cujas páginas vão amarelecendo no passar to tempo. Ainda que muitos haja – refiro-me às pessoas de idade – que jamais esquecerão as dores, as perdas, as perseguições, as matanças, por que tiveram que passar junto com as suas famílias e amigos.

Hoje estou em Granada, uma das cidades mais belas da América Central, a pouca distância de Manágua e encostada ao Lago Nicarágua por onde irei num destes dias fazer um asseio de barco e conhecer as “isletas” que salpicam a superfície desse fascinante espelho azul decorado por vulcões. Granada é o protótipo de uma cidade de dimensão média de um país centro-americano.

Tem a sua Catedral perfeita, a sus religiosidade sentida, outras igrejas mais modestas que compõem o conjunto, as casas baixas de cores alegres, os jardins algo abandonados, os miúdos que correm ranhosos, as idosas de pele pergaminhosa que saem à rua apoiadas nas suas bengalas e nos seus anos centenários, os bares pequenos e ruidosos de música estridente e mexida, os restaurantes escondidos, uma paz respirável. É sobretudo de lugares como este que o meu mundo se constrói. Nunca escondi que a América do Sul e Central é o meu continente preferido. Sinto-me perfeitamente em casa e sei entrar perfeitamente na onda.

[ou por lá não tivesse também vivido]

A Calle de la Calzada é o lugar onde tudo acontece no que tem que acontecer em termos de animação, entretenimento e gente com alegria de viver.

Os grupos de Mariachi andam de mesa em mesa a vender as suas cantigas e sons alegres, vestidos a preceito e fazendo saltar sorrisos das bocas e dos olhares. Dançarinos de rua fazem piruetas na calçada, contorcem-se ao ritmo da street dance e batem palmas ritmadamente para marcar os tempos. As músicas saem diferentes de diferentes bares ou restaurantes mais entusiasmados. Por aqui, ainda que de raspão, passam carros de gostos impossíveis cujas placas de matrícula são contornadas por luzes psicadélicas. E cujas partes de baixo da carroçaria arrastam ruas fora luzes de néon que os fazem parecer carros de uma série rasca de ficção científica.

Impossível diria que são também as combinações que se formam mais ou menos espontaneamente. Sobretudo as adolescentes americanas que por aqui vêm em visitas de fim de curso e que se fazem acompanhar por nicaraguenses “batidos” em estrangeiras.


Como impossíveis não me parecem ser os passos trocados que as miúdas desajeitam com o emborcar das sucessivas cervejas.

Por aqui vêm ainda os vendedores de hamacas (redes de descanso), de pulseiras artesanais, de tabaco contra faccionado levado em tabuleiros equilibrados numa mão. Vêm também os vendedores de aventais bordados com temas do país, alusivos a cenas campestres ou culinárias. Destoando completamente do ambiente.

De tempos a tempos passa uma família. Inteira. Que varia entre os poucos meses e os muitos anos. E que vêm espreitar o que se passa por este que é o lado mais agitado da cidade quando o sol se deita.

Depois passam meninas aperaltadas, daquelas sem cama certa que por um punhado de dólares satisfazem a voracidade carnal de americanos com alguma idade e muitas notas à solta na algibeira. Passam com os corpos miúdos, meneados e consumidos por tantas nacionalidades.

E os hippies, porque também há lugar e espaço para eles, descem a “calle” na demanda do quarto mais básico e barato para recuperarem das horas cansadas e a precisarem de sonos. [e todo eu sou um intervalo de casas coloridas e sorrisos naturais que se espalham em meu redor]
E todo eu sou sentidos à flor da pele.

E também há os miúdos que passam em bicicletas rudimentares, rasando tudo o que podem, carregando neles a adrenalina da mocidade. E passam homens que levam sacos na mão com quilos de gelo a caminho de uma arca, de muitos copos, de imensas bocas precisadas de se refrescarem.

E entretanto há quem dance a propósito do nada no meio da rua, como se de repente fossem impulsionados por uma descarga elétrica, secreta e invisível, seja ao som dos Mariachi, seja ao som de um reggae que sai pela porta do O’Sheas, seja ao som de  uma música que será só sua, que toca só na sua cabeça e faz o seu corpo libertar-se de constrangimentos públicos. É uma corrente ininterrupta de gente que sobe e que desce a Calle da la Calzada. De gente que ri, de gente que espalha boa disposição, de gente que deixa no ar palavras alegres que sobem, sobem, sobem e acabam por se colar num céu repleto de estrelas e de uma luz de lua suave acolhedora.

E passa, como sempre passa nestes lugares, o homem perdido no sue mundo. Sem música, sem comida, sem futuro. De tronco nu e calções rasgados, de barba por fazer e com palavras que só ele conhece. E que comanda com a batuta invisível da sua demência. Ou com os gestos perdidos no espaço do seu esquecimento. E passam crianças andrajosas que estendem mãos sujas na direção de um dólar ou de alguns córdobas.

E vem depois o gato, preto como é de direito nestas coisas da noite e dos lugares que se preenchem de detalhes. Tantas vezes satânicos aos olhos dos supersticiosos. Que passa tão sorrateiramente como é obrigação dos felinos. Passa curioso e altivo, lento e ao mesmo tempo fugidio, nervoso. Mas sem medo.

E o cachorro, também ele da cor da noite, que não olha ao gato, antes às mesas na esperança de algum sinal de bondade dos que por aqui jantamos (desas)sossegadamente.

E porque a rua não se esgota nestes poucos quarteirões de um outro mundo enlouquecido, segue por ali abaixo, em direção às margens do Lago Nicarágua, em mais quarteirões do que os anteriores, silenciando-se no continuar dos [meus] passos.


Abrem-se as portas das casas aos meus olhares sôfregos de saberes. Saúdo as “abuelitas”, travo conversas de ocasião com os “abuelitos” que se balançam nas suas cadeiras de vimes. Convidam-me a entrar, a sentir o cheiro e os segredos de uma casa que se me revela. E eu vou entrando, faço-me de casa, desfaço-me em “gracias”, e “por favor” e “que lle vaya bien”. E vou conquistando outras sombras, outras esquinas, intimidades que me eram escondidas.


E agora já vou subindo, de regresso ao meu hotel. Reatravessando os quarteirões da agitação noturna. Não me cruzo com o gato, nem tenho sequer a certeza se em algum momento ele terá andado por aqui. O cachorro terá ido por outros becos, porque também não o vejo. Aliás já pouco vejo de tudo o que por aqui se passa. Apenas sinto as pessoas, sinto a alegria, sinto a vida a jorrar e os amanhãs de que todos estamos sedentos.

Sinto-me parte das horas da cidade e das conversas que me trespassam. Caminho manchado de noite, preenchendo-me de tudo, enriquecendo-me de tanta coisa. E passo pelo vento que agora também vem ao meu encontro para me saudar, ou quisesse apenas completar este conjunto de sensações de bem-estar.

E interiorizo que provavelmente jamais voltarei a passar por estes lugares, ainda que à distância das geografias, saiba de antemão que muitas vezes por aqui virei. A descer. A subir. A sentir. Este lugar tão profundamente repleto de personalidade. Esta geografia tão singular e distinta como é a cidade de Granada. Na Nicarágua.

Guia prático:

É necessário visto que se pode obter à entrada. Passaporte válido por mais 6 meses em relação à data do término da viagem. Não são necessárias quaisquer vacinas.

Moeda nicaraguense é o Córdoba.

Diferença horária são menos – 7 horas em relação a Portugal.

Como Ir:
Melhor opção de voos é com a Ibéria para Manágua e depois cerca de 40/50 minutos para chegar a Granada.

Onde Ficar:
Hotel Boutique Maison de Chocolate, Hotel Colonial, Hotel Plaza Colón e Selina Granada

Onde Comer:
El Zaguan, Pita Pita, Café de Arte, El Corral, O’Sheas, The Garden Café, La Hacienda

*António Barroso Cruz é um viajante compulsivo, tendo visitado 90 países e mais de 700 cidades. É também escritor, com 29 livros publicados e autor e apresentador de programas para televisão, ator e figurante em televisão, óperas, teatro e novelas. Aos leitores do Onde Ir conta a sua experiência na Nicarágua .

 

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