Índia, uma experiência sensorial

A neblina dormiu toda a noite sobre o Ganges e manhã em Varanasi acorda com as cores esmaecidas pela ausência de um sol aberto e altruísta. Acorda sossegada, envolta em lençóis de mistério que apenas me permitem adivinhar-lhe os contornos.

Por António Barroso Cruz*

Sinto que a cidade está pacificada à medida que vou deslizando pelas águas quietas do rio sagrado. São 6h30 da manhã e os vestígios da noite de ontem, como em cada manhã em relação às noites de véspera, saltam ao olfato e ao olhar.
Ontem à noite estive por aqui, perante as piras funerárias. Eram muitas numa noite imensamente escura. Foi a imagem mais dantesca e próxima do inferno (ainda que nele não acredite) de que posso ter estado.

Hoje acordei cedo, estou a iniciar a minha viagem pela Índia e Varanasi era-me obrigatória. Jamais conceberia uma primeira viagem pela Índia sem a iniciar nesta que sempre foi a minha cidade de referência no que a religião e espiritualidade diz respeito. E eu que nem sou religioso e a minha queda para a espiritualidade é assumidamente envergonhada…

A partir daqui considero-me preparado para o que o mês espera, apesar de já ter estado dois dias em Deli, que me entregou uma noção bem nítida de palácios e templos exuberantes. É impossível não nos sentirmos para além de nós quando visitamos lugares sagrados como o mais sagrado lugar dos Sikhs, o Gurudwara Bangla Sahib. Ou o Forte Vermelho, ou o Memorial a Gandhi, ou a Porta da Índia (onde parece que a cidade se concentra em homenagem aos soldados caídos na segunda guerra mundial e na do Afeganistão), ou o tumulo de Humayun (de estilo Mughal), ou mesmo o Qutab Minar (o maior minarete do mundo rodeado por ruínas de templos jainistas e islâmicos). No meio de toda esta riqueza patrimonial, o inevitável passeio de riquexó pelas ruelas da parte mais antiga da cidade, Chandni Chowk, é mais do que obrigatório.
Deli é uma das cidades mais antigas do mundo e conserva tanto património Unesco que apenas estes dois fatores poderão falar e resumir tudo o mais.

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Durante os meus dias na Índia irei ver um povo sereno que conduz de forma dramática e suicida, sobretudo nas grandes cidades onde lutam desenfreadamente por cada centímetro de espaço. Levam na chapa as marcas da atitude arrojada e das incidências que deixaram mossas.

Das vacas pelo caminho já eu sabia. São sagradas para a religião hinduísta. Defecam por tudo quanto é sítio, e há “dalits” (membros da casta dos intocáveis, considerados impuros) que se dedicam única e exclusivamente a limpar os quilos de bosta que se espalham por todo o lado. As vacas deitam-se por onde lhes apetece, e quem quiser contorná-las que se sinta à vontade.

A Índia é um país de fortes contrastes. Tem aqueles bairros de vivendas luxuosas enquanto que ao lado vivem famílias nas mais míseras das condições. Ou seja, nada mais que o reflexo de tantos mundos e realidades que pelo mundo existem.

A canoa continua a deslizar pelo Ganges. Um corpo minúsculo vai enrolado em lençóis brancos numa embarcação com que me cruzo. É um bebé de poucos meses que não sobreviveu. Será deitado ao rio sagrado com os pesos necessários para o deixar no fundo. Bem no fundo. Um tapete de corpos em construção que até aos 5 anos de idade (por não terem tido tempo de se tornarem impuros) jazem abaixo de nós num leito de inimagináveis e indescritíveis dores. É um leito que não vejo, apenas perceciono muito aquém da sua mortuária realidade.

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As orações cantadas chegam-me de vários autofalantes ao longo do rio. Os corpos quase nus ganham-se no Ganges, purificam-se. A neblina a pouco-e-pouco vai cedendo e as cores dos edifícios vão tomando vida no meu olhar deslumbrado. Estou em modo petrificado. Em êxtase absoluto pela grandiosidade que me rodeia.

A viagem está prestes a terminar, hoje passo o dia em Samode e almoço naquele que é um dos mais icónicos hotéis do país, o Samode Palace. Obra-prima da arquitetura Indo-Sarracena com os melhores estilos indiano e Mughal. É uma história com 475 anos em que o luxo se infiltra descaradamente nos nossos sentidos e nos impele a beber cada instante desta pérola rara.

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Já andei pela Cidade Rosa, Jaipur, a monumentalíssima capital do Rajastão. Por ali fui na senda do Forte de Âmbar, ao qual subi balançantemente ao ritmo das pesadas patadas dos elefantes gastos e cansados. De olhar triste e baixo. Por lá fui também nas exclamações do Hawa Mahal, construído com o objetivo de replicar a coroa de Krishna, com as suas quase 1000 janelas. E pelas admirações que deixei no Palácio da Cidade com os seus pátios, os seus terraços, as suas portas admiravelmente trabalhadas. Por lá me perdi e embasbaquei no observatório astronómico de Jantar Mantar, um conjunto de uma precisão fabulosa recorrendo a materiais como a pedra e o latão e seguindo os princípios do desenho de instrumentos a partir de textos antigos. Também ele faz parte da lista do Património Mundial da Unesco.

Andei também por Fatehpur Sikri, a cidade construída para comemorar o nascimento do filho do imperador Akbar e que mais tarde viria a ser abandonado devido à seca extrema por que a região passou. Mas que ainda hoje mantém em muito boas condições os seus palácios e templos.

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E andei por Agra, naturalmente, pois não poderia deixar de visitar o Taj Mahal, que levou 22 anos a ser construído e envolveu cerca de 22 mil homens e 1000 elefantes. E lá andei também pelo Forte de Agra, situado nas margens do Yamuna, também ele elencado pela Unesco. Foi uma das mais importantes fortificações à época (falo de século XVII), com 11 mahals que constituíam o seu interior.

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E fui a Orcha, a cidade medieval do século XVI fundada por Rudra Pratap, onde se destacam edificações como o Jehangir Mahal, o Raj Mahal e o Rai Praveen Mahal. Para depois, já em final de dia e com uma luz preciosa para compor fotografias, visitar os famosos Templos de Chandela, em Khajuraho, famosos pelas esculturas eróticas que numa sociedade como a hindu sempre foram apreciados e respeitados, pois o sexo na Índia, e como o comprova o não menos famoso Kama Sutra, é algo tão simples e belo como arte.. foi escrito em sânscrito no século III, possuindo 36 capítulos sendo que apenas um deles discorre sobre as posições sexuais adoptadas por um casal.

Esta noite ainda vou dormir em Deli. Amanhã esperam-me muitas horas de voo para regressar ao meu porto de abrigo e reflexão. Os meus sonhos, esses, fazem-se de concretizações geográficas.

Guia prático
Como chegar:
Emirates, Lufthansa, Air France ou Turkish Airlines são as melhores opções aéreas para chegara a Deli.
Onde ficar:
Deli – The Leela Palace
Agra – Jaipee Palace Hotel
Samode – Samode Palace
Jaipur – Shahpura House
Khajuraho – Radisson Jass Hotel
Varanasi – Taj Ganges
Moeda – Rupia, equivalente a +/- 0,015€
Passaporte válido por 6 meses após o término da viagem.
Necessária obtenção de visto que pode ser tratado online e obtido à entrada.

 

 

 

 

 

*António Barroso Cruz é um viajante compulsivo, tendo visitado 90 países e mais de 700 cidades. É também escritor, com 29 livros publicados e autor e apresentador de programas para televisão, ator e figurante em televisão, óperas, teatro e novelas. Aos leitores do Onde Ir conta a sua experiência na Índia.

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