Marselha cheira a mar e a sabão de alfazema

É no Vieux-Port que está o coração de Marselha, a mais antiga cidade francesa e a segunda mais populosa do país. Neste porto onde o Mediterrâneo se oferece ao olhar, um outro sentido é despertado: o olfato.

Por Wilson Ledo

Marselha cheira a mar, ao peixe acabado de pescar e ao famoso sabão que adotou o nome desta cidade da Provence. O mais típico, diríamos, será o de alfazema, a trazer até nós os campos que se estendem ali tão perto, nos arredores da cidade.

Chegar ao Vieux-Port é tomar consciência de uma outra França, bastante diferente do imaginário parisiense cultivado pelo cinema. Os barcos que descansam neste porto convidam-nos, a nós que estamos de visita, também a relaxar e a aproveitar o momento. E Marselha tem ingredientes para satisfazer os apetites mais contrastantes: tradição e modernidade, cultura e compras, diversão e meditação.

Do Vieux-Port parte-se facilmente a pé para outros recantos peculiares, cada um à sua maneira. Num dos bairros de visita obrigatória, o Panier, as lojas de “souvenirs” vivem paredes meias com os espaços dedicados a antiguidades. Nem a rica paleta de cores ou as janelas cobertas de plantas conseguem esconder a longa idade dos edifícios que se erguem nestas ruas.

Marselha mistura, na mesma linha de horizonte, tempos tão diferentes. A imponente Catedral de Marselha ou o Forte de Saint Jean, construído ainda no século XVII, são vizinhos das linhas retorcidas do moderno Museu das Civilizações da Europa e do Mediterrâneo (MuCem), projetado por Rudy Ricciotti. Todos eles sabem como tirar partido do mar, do entra-e-sai de pequenas embarcações, dos envolventes minutos em que o sol se põe.

Mas não é só na arquitetura que se fazem os contrastes desta cidade costeira francesa. Marselha é aquilo a que se poderia considerar um autêntico “melting pot”. A presença árabe talvez seja a mais notória quando se percorrem as ruas de Noailles, onde as mais diversas especiarias ocupam as bancas, com o seu cheiro a impregnar-se no ar. As ruas deste bairro são mercados que nos fazem sentir que estamos a viajar para um outro país dentro da própria cidade que já nos é estranha.

Embora não seja o aspeto que mais salte à vista, Marselha tem também muita arte contemporânea e de rua para oferecer. Na Friche la Belle de Mai, uma antiga fábrica de tabaco perto da estação central da cidade, as mais diferentes formas de expressão artística partilham espaço e ideias. Já durante os passeios a pé há duas esculturas que não lhe passarão despercebidas: a espelhada “Le Ombrière” de Norman Foster no Vieux-Port e a alaranjada “Second Nature” de Charles Bové na Place d’Arvieux. Por sua vez, Cours Julien apresenta-se como a área mais criativa de Marselha, com várias ruas repletas de grafitis, lojas de design, galerias e cafés à boa maneira francesa.

Se Marselha se dá a ver do mar, também do alto é possível ter uma vista privilegiada para a cidade. Em dias ventosos, chegar ao topo pode ser um desafio de equilíbrio difícil. Contudo, o que se revela no interior da Basílica de Notre Dame de La Garde é de uma beleza única. Os tons brancos, rosas e dourados do templo são preenchidos por dezenas de quadros evocando naufrágios. Há uma certa tristeza quando se pensa no mar como lugar de perda, de viagens não concluídas. Para, no minuto seguinte, nos fazer agradecer termos chegado a este destino. Marselha é, de facto, um refúgio. Dos mais inesperados que a vida pode ter.

 

Guia Prático:

Como ir: se partir de Portugal, há várias transportadoras a voar para o aeroporto que serve tanto Marselha como Provença. Se quiser viajar numa companhia “low cost”, para poupar e assim gastar no destino, a Ryanair é uma das opções a ter em conta.

Onde ficar: a cidade está bem servida de unidades hoteleiras e de alojamento local, com preços bastante acessíveis. A nossa sugestão, para sentir um pouco como é viver na cidade, é que escolha um apartamento entre os vários disponíveis no Airbnb, como este em que ficámos, com vista privilegiada para o Vieux-Port. Se o dinheiro não for um problema (ou o momento exigir mais glamour), experimente o InterContinental Hotel Dieu, uma das imponentes unidades que mais marca a paisagem da cidade.

Como se deslocar: do aeroporto para a Gare de Marseille-Saint-Charles existem autocarros próprios. Depois, já em Marselha, conseguirá percorrer a maior parte da cidade a pé, com calma. O metro também é uma opção nas distâncias um bocadinho mais longas. Já para a subida à Basílica de Notre Dame de la Garde, o autocarro é a melhor opção. Deixe o carro em casa e aproveite para passear de verdade.

Onde e o que comer: Há muita variedade, sobretudo à volta do Vieux-Port. Uma das iguarias ditas obrigatórias é a Bouillabasse, uma sopa de peixe. O peixe, pescado nas águas que rodeiam a cidade, é dos grandes atrativos nas ementas de Marselha. Em relação aos preços praticados em Portugal, sentirá que comer fora sai mais caro. Há gastronomia um pouco de todo o mundo, da cozinha italiana à tailandesa.

A moeda: a moeda é o euro. Assim não precisa perder tempo a pensar nos câmbios.

Atividades a partir de Marselha: Os campos de alfazema da Provença são um dos cartazes turísticos de França. Se tiver tempo, faça uma excursão para ver e cheirar no ponto onde tudo nasce. A cidade universitária de Aix-en-Provence é outro dos atrativos nas redondezas. Se for uma pessoa de mar, entre a bordo e vá conhecer o Château d’If (que inspirou a história de “O Conde de Montecristo”) ou o Parque Nacional das Calanques. A transparência do azul e a beleza da paisagem vão certamente conquistá-lo.

 

Algumas palavras:

Olá – Salut!

Obrigado – Merci

Adeus – Au revoir

Por favor – S’il vous plaît 

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