Nuno Fonseca: da floricultura ao amor

Como aqui me deja el alma / Que aqui he venido por ella
Aunque mi cuerpo ha corrido / El mundo, leguas y leguas

Toma este puñal dorado / Y ponte tu en las cuatro esquinas
Y dame tus punhaladas / Y no digas que me olvidas

Rosalía: Si tu supieras compañero


Uma voz de criança declama os primeiros versos da música de Rosalía: Si tu supieras compañero. Se ela soubesse que um dia, mais tarde, irá sentir o tal punhal dourado de que fala; se ela soubesse que o medo de ser esquecida ainda está por surgir e que as tais quatro esquinas também existem aqui, em Braga.

O espetro de tons empregue por Nuno Fonseca, artista da atual exposição da zet gallery, transparece o meu conceito de amor: não é branco nem preto ou branco e preto, sequer. É cinza escuro e claro, mais ou menos obscuro, de luminosidade e gradações variáveis. Não é estanque ou repetível – mas todos os casos têm em comum a história que um dia contaram ou ainda têm por contar. A deste artista intitula-se: O Floricultor que Sachava Pés. Da série de trabalhos, dez obras de arte ocupam uma das salas da galeria. Desenhamos as quatro esquinas uma e outra vez para as observar: as da área de exposição e as do tapete em terra que do chão emerge. Pela forma como estão expostas, traçamos quadrados com o corpo até conseguirmos chegar a todas: das fixas na parede, às que dela se tentam descolar até às peças suspensas.

As figuras humanas ocupam um lugar secundário e, como se inacabadas, são deixadas na fase do desenho, por preencher, por pintar, revestidas por um altruísmo em relação aos elementos que as contornam. Mas o autor revela-se um apaixonado pelo todo: “(…) pela figuração, pela riqueza cromática, pela forma, pela linha, pela estrutura, pela mancha. (…) crio, em primeiro, a mancha e a textura; só depois vem a figuração que se interliga na estrutura inicial, ora fazendo parte dela, ora extrapolando-a. Concilio várias atitudes pictóricas dentro da mesma tela fazendo-as dialogar como se o quadro fosse o ponto de encontro de várias personalidades.” E nesta diversidade habitam todas as possíveis histórias de amor, que nunca são iguais. A inesperada simbologia das criações de Nuno Fonseca alerta-nos para a contradição entre a pureza das flores e plantas e os químicos frequentemente utilizados no seu cultivo; entre a vontade de insistir no orgânico, quando o artificial é necessário; das relações nem sempre naturais, límpidas, puras.

O artista é um dos seis nomes da atual exposição coletiva da zet gallery, CALL FOR PAPERS, com curadoria de Helena Mendes Pereira. A seleção completa-se pelos artistas Ana Bonifácio, Bernardo Scoditti, José Augusto Castro, Mariana Mizarela e Rui Horta Pereira pode ser visitada até sábado, 2 de março, no centro de Braga.

 

 

 

 

 

Por Catarina Martins

Head of communication 

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