Pelas ruas de Manuela Pimentel

Não sei se vieram as ruas

da cidade onde já morei

Sim as ruas estiveram neste quarto

isso é mais que certo

Mas eu não sei se vieram antes

ou depois do princípio da manhã

Excerto do poema Golpe de 7 graus de Matilde Campilho in “Jóquei” (Tinta da china, 2014)

Nada é verdadeiramente nosso ou dos outros: nem os cartazes dos espetáculos que já aconteceram, os poemas publicados ou a arte. Mas na invenção e reinvenção de referências, ruas e poesia são, respetivamente, de Manuela Pimentel e Matilde Campilho. A primeira, artista, habita na certeza da segunda, declarada sob a forma de verso: “Sim as ruas estiveram neste quarto / isso é mais do que certo”.

Nas quebras do material recolhido surge a delicadeza e pelas frinchas dos cartazes de rua instala-se a beleza. Deixam de ser papel em decomposição para se transformarem, através do imaginário da azulejaria, em quadrados exatos com espaçamentos precisos entre si. Manuela Pimentel não esconde a desordem do espaço público – dá-nos a conhecer novamente e desenha um canto de leitura longe do frenesim. Aí surge o extraordinário, numa missão de salvação do mais ordinário de todos: o quotidiano. Da rua para o atelier para a galeria, a sua criação é alvoroço na indiferença, fraquejo dos mais sisudos.

Quando Matilde Campilho revisita, em livro, uma obra de arte de Jackson Pollock – contemplada ao vivo, em Londres, vinte anos antes, quando não sabia o que era ou de quem – diz-lhe: eras tu, estavas aqui sempre. Trata-a na primeira pessoa, com a intimidade de quem se apaixona à primeira vista e o sabe. Esquece os limites do espaço do museu, da página do livro ou da escala limitada da imagem. Ambas registam em matéria física – obra de arte e publicação literária – o que permanece daquilo que passou. Ignoram o expectável, juntando numa só linhas até então paralelas: o público e o privado.  Os álbuns que compõem podem ser ouvidos num loop digital feito banda sonora dos dias, aqui e aqui.

Para além do trabalho de Manuela Pimentel, as obras de arte de Acácio de CarvalhoGil Maia, Mafalda Santos, Paulo Moreira e Sónia Carvalho, que formam a exposição NOVAS BABILÓNIAS, podem ser vistas na zet gallery, no centro de Braga, até sábado, dia 21 de setembro. A exposição comissariada por Helena Mendes Pereira prolonga-se por mais duas semanas. Estes e outros portefólios, de mais de 400 artistas, podem ser explorados na plataforma digital da galeria, em www.zet.gallery.



Catarina Martins, head of communication da zet gallery
 

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