Senegal, lugar de magias e culturas

Acontece-me sempre o mesmo quando piso território africano: sou acometido de um fascínio que se me entranha de tal forma que todo eu me transformo num continente negro e como que regresso às minhas origens. Sim, porque reza o património histórico da evolução humana que foi aqui, em África, que tudo começou.

Por António Barroso Cruz*

De África sou sabedor das horas que se demoram, dos passos vagarosos que descobrem mistérios a cada andar. Sou conhecedor dos cheiros, aqueles cheiros que parecem devorar-me mal piso território africano. De África sou sentidor de olhares. Daqueles olhares profundos e quase secretos. Olhares que me segredam vontades, quem sabe curiosidades acerca do estranho que lhes invade as fronteiras. De África sou escravo das belezas que se estendem em meu redor, sou dependente dos finais de tarde em que o sol abandona o lado da Terra em que estou para alaranjar o céu e quietar e silenciar e pacificar o meu mundo. Um pequeno mundo inteiro e apenas meu. Que preservo nas memórias. Que respiro em golfadas de ar tranquilas e irrepetíveis. De África sou apenas isto, um pequeno homem insignificante perante a grandeza do continente. Perante a enormidade de riquezas. Perante o despojamento a simplicidade a humildade a alegria e um estado de alma incomparavelmente preenchido.

DR

Aterro em Dakar, capital do Senegal. São horas avançadas na madrugada e o mundo inteiro parece ter saído à rua. Existem carros, muitos, existem pessoas, tantas, existem estrelas num céu aberto e altruísta para quem o queira olhar enternecidamente. Existe uma vontade imensa de não dormir.

A minha viagem ao Senegal tem um propósito: descobrir-lhe a cultura, o património, a gastronomia. Sentir na boca os paladares deste povo. Sentir em todos os meus sentidos o pulsar deste país de que sempre ouvi falar. Sobre o qual sempre quis saber.

Dakar está doente. Sofre de uma enfermidade de abandono no que à preservação dos seus edifícios diz respeito. Sofre de uma atitude de desleixo no que às suas praças e jardins diz respeito. Sofre de uma desatenção por parte de quem governa a cidade e será o maior responsável pela sua recuperação. Pelo reconquistar das suas belezas. Que por lá continuam inegavelmente. Mas que carecem de atenção, de carinho, de amor, de desejo de de novo as ver brilhar. E sorrir.

Gorée.
Créditos: DR

Mas ali mesmo em frente, a apenas 20 minutos de travessia num ferry apinhado de sorrisos, vozes musicais e as cores garridas das vestes, encontra-se a ilha de Gorée. Dizem que é o primeiro local onde os portugueses atracaram quando percorriam a costa africana. Para o atestar aqui está, devidamente recuperado (à semelhança dos restantes edifícios desta ilha onde vivem cerca de mil pessoas) o primeiro edifício – então capela – erigido em território senegalês.

Mais a norte, a um breve olhar da Mauritânia, a cidade de Saint-Louis é o exemplo perfeito de uma antiga colónia francesa votada ao esquecimento. Uma cidade repleta de charme, uma cidade repleta de belíssimos edifícios civis, religiosos, militares. Por aqui e por além, um ou outro bem recuperados que pintam uma pincelada de esperança quanto ao futuro da recuperação do seu património. Lindíssimo! De nos perdermos nas ruas cheias de gente, de balancearmos o corpo ao som das músicas africanas que saem das lojas de discos (pirateados ou não), de nos encantarmos com as galerias de arte onde proliferam peças (pictóricas, escultóricas, tecidos) de artesãos locais e que valem muito a pena serem adquiridas.

Os bons restaurantes, os hotéis antigamente célebres que vão ressuscitando numa ou noutra rua mais solitária.

E daqui, porque fica ali mesmo ao lado, visito o incontornável bairro de pescadores de Guet Ndar. Um universo completamente surreal que me permite mergulhar no âmago de um povo, de uma tribo, de um clã. Por mais andanças que tenho dado pelos quatro cantos do mundo nada se lhe compara. Os cheiros fortes, intensos, tantas vezes repulsivos. As cores que se amalgamam numa festa para o meu olhar. As vozes graves, provocadoras. A adrenalina que me escorre nas veias por me ver mergulhado numa cultura extrema, num modo de vida quase radical. Infra humano.

Aldeia de Lompoul.
Créditos: DR

Da minha cruzada por território senegalês fazia parte uma ida ao deserto com consequente dormida numa tenda de luxo. Simples, monástica, mas de luxo. Porque é um luxo dormir no deserto de Lompoul rodeado de areia a perder de vista. Rodeado de um silêncio tão profundo que se torna ruidoso. Rodeado de um espaço absoluto. E depois levantar os braços e deixá-los ir ao encontro das estrelas que se enchem de luz para me fazerem sorrir. Num céu imenso de generosidade. Num céu enorme de sonhos que sou obrigado a sonhar. Vivência única e grandiosa. Aqui tudo é poesia.

Sine Saloum, mais a sul, já quase junto à fronteira com a Gâmbia, é uma reserva natural para onde confluem vários rios formando um maravilhoso rendilhar de cursos de água que por sua vez resultam num belíssimo Delta. O passeio de canoa por entre os mangais é algo de mágico. É algo que parece irreal, impalpável. É como se, de repente, entrasse num outro planeta. Um planeta de singulares tesouros naturais. E depois uma pequena paragem para visitar um dos povos do Delta, pescadores da etnia Serer que me franqueavam as cortinas das suas casas de colmo e canavial e me convidavam para uma conversa e mais sorrisos.
As vistas por aqui são imensas e permitem recolher-me no silêncio dos dias e das noites curtas.

Quarto da família Peulh.
Créditos: DR

Um pouco por todo o país fui visitando aldeias nómadas. É nelas que as famílias e clãs Peulh se abrigam e se vão deslocando em função das estações e das necessidades de alimentar o seu gado. Conviver com estas famílias, fazer parte – ainda que durante apenas algumas horas – do seu quotidiano, tomar o chá que nos é oferecido como um ritual de boas-vindas, trocar palavras que me são entregues com sorrisos genuínos, é algo de sublime. É ter a noção de que a vida em estado quase puro é uma realidade. E que para ser feliz de pouco mais precisarei do que uma vivência deste teor. Foi, de todas, a recordação que lembro com mais carinho, quem sabe se com alguma lágrima que me corre invisivelmente pelo coração. Porque quando me despedia daquelas crianças, daquelas mulheres, daqueles chefes de família, trazia comigo uma alma repleta de bondade, um amor muito especial. E uma enorme vontade de voltar e revê-los.

Encontros que em regiões como a de Gandiolais, situada no Sahel senegalês, voltei a repetir. Sem nunca me cansar de sorrir, sem nunca me cansar de apertar mãos, sem nunca me cansar de conversar mesmo que por vezes as palavras me fossem ininteligíveis.

Langue de Barbarie.
Créditos: DR

Uma viagem de descoberta pelo Senegal nunca ficaria completa sem dar um salto ao Parque Natural Langue de la Barbarie, onde pude observar as tartarugas, onde pude acompanhar o voo das diversas aves marinhas que aqui vêm em recolhimento. Ou observar a azáfama piscatória de um final de tarde em que as cores desmaiavam perante a energia dos que se entregam à pesca.

E é isto que África representa para mim. Uma permanente descoberta das suas gentes. Um imenso enriquecimento de conhecimentos sobre os povos e as Histórias que os acolhem. Uma forma gloriosa de acrescentar memórias à minha memória. Sorrisos aos meus sorrisos.

Um regresso a um lugar onde afinal também possuo raízes. Distantes no tempo, é certo. Mas que estão cá dentro. Do meu peito, do meu sangue, da minha alma.

 

 

Guia prático:

Como ir: Tap, voo direto desde Lisboa com frequência diária

Idioma oficial: francês

Moeda: franco CFA

Onde dormir: Dakar: Novotel Dakar, Radisson Blu Dakar Sea Plaza

Saint-Louis: Hotel La Résidence, Maison Sunu Keur

Lompul: Camp du Désert

Sine Saloum: Nguel du Saloum

 

 

 

 

 

 

 

*António Barroso Cruz é um viajante compulsivo, tendo visitado 85 países e mais de 700 cidades. É também escritor, com 29 livros publicados e autor e apresentador de programas para televisão, ator e figurante em televisão, óperas, teatro e novelas. Aos leitores do Onde Ir conta a sua experiência no Senegal. 

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